Formulário de Busca
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    Deixando de existir... por um tempo

    A sociedade está se tornando da informação e a vida real depende cada vez mais dela. Quer ver? Experimente ficar sem documentos...

    Meus documentos sumiram no meio da festa, nas mãos do que a gíria policial chama de descuidista. Como não poderia deixar de ser, horas se passaram até que o fato fosse notado. Aí já era tarde, e tarde da noite. Busca aqui, busca lá, nada feito. Melhor cair na real e começar a cancelar cartões, inclusive de saúde. E começar vida nova.

    Nova mesmo. Fique sem os papéis e plásticos que costumam ser a prova de quem você é e, não mais que de repente, você não é ninguém e não pode fazer muitas coisas que, outrora, aconteciam num piscar de olhos. A começar por tudo que tenha relação com seu banco, do qual você depende pra ter dinheiro e pagar pela segunda via, digamos, da carteira de motorista. Seu dinheiro está lá, você foi pra lá também, e é um sábado de manhã. Não há ninguém do banco à vista. Você sabe todos os seus números e senhas, mas eles de nada lhe servem, porque seu cartão partiu desta para a melhor.





























    E não adianta ligar pra nenhum call center. Dinheiro? Só segunda. E um cartão novo? No “meu” banco, oito longos dias... Isso quando a entrega rápida deixaria um plástico na minha casa na segunda e, se fosse mesmo urgente, no domingo. Na hora em que me comunicaram os anos-luz de distância até um cartão novo, pensei ter passado, via algum trecho do hiper-espaço, da tal sociedade da informação para os tempos do correio a cavalo.

    Para muitas coisas importantes, a sociedade não é de informação coisa nenhuma. Dinheiro é uma delas. Dirigir é outra. A partir de sua viatura, o guarda vê meu prontuário on-line e descobre que estou apto a dirigir. Mas isso não importa, o que vale mesmo é a carteira que eu não carrego. Aliás, que sou obrigado -- por lei -- a carregar. Não é a sociedade da informação, é a sociedade de carregar papéis e plásticos que remetem à informação sobre você e seus direitos.

    Um dia, para tirar dinheiro do caixa automático, o cartão será mera redundância, quando a coisa fizer identificação biométrica, usando (por exemplo) impressões digitais. Aí, a menos que o ladrão roube dedos e consiga mantê-los em bom estado (do ponto de vista da leitora) e saiba as senhas relevantes, será impossível roubar um cartão, porque não ele não haverá. Isso, claro, pode ser feito hoje. E já é feito em muitas situações. O que falta é virtualizar de vez o que já é virtual, a informação sobre quem somos e quais são nossos “direitos”, em todos os sentidos. De verificação de identidade pura e simples até o atendimento complexo em um hospital.

    Pode parecer estranho, mas tal processo tem tudo a ver com a história do dinheiro. Antes dele, era preciso carregar coisas que seriam trocadas por outras. O dinheiro é simples informação sobre poder de compra. Evita que se leve, à loja, vacas para trocar por carro. O cartão de crédito ou pagamento virtualiza tudo outra vez, carregando num pequeno (e fácil de desaparecer) pedaço de plástico a informação sobre quanto dinheiro se tem. Ou se pode ter, se precisar. Para o dinheiro, a próxima rodada será a eliminação do cartão e o uso dos dados pessoais, biométricos, aqueles que realmente andam o tempo todo com você, como meio de identificação.

    Para todo o resto, quando tudo o que for preciso para sermos identificados for o que realmente somos em nossa simples e pura realidade física, teremos voltado, em plena sociedade da informação, ao tempo em que cada um era apenas o que, à primeira vista, parecia ser. Mas isso ainda vai levar muito, muito tempo. Até lá, não deixe seus “dados” dando sopa por aí, sobre a mesa da balada. Dá um trabalho danado pra começar tudo do zero de novo.

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