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    O trabalho dos poderosos... e infelizes

    Maio é o mês de se refletir sobre o trabalho... e sobre suas novas formas, informatizadas, que parecem certas horas mais complicar do que resolver.

    Na primeira semana de maio esta coluna discutiu o trabalho do futuro e o futuro do trabalho. E dissemos que, “poucos trabalhos, no futuro, terão que ser feitos de forma síncrona (ao mesmo tempo) e localizada (no mesmo espaço), por muita gente.” E que “nosso trabalho, nos escritórios, está cada vez mais relacionado apenas ao ciclo de vida da informação”. Um ciclo radicalmente modificado e instrumentado, hoje, pela web. Pois bem: a última revista Época Negócios conta que assustadores 84% dos executivos brasileiros estão infelizes no trabalho. E o número pode ter uma alta correlação com o fato de que 74% deles acessam o emeio profissional fora dos “horários de trabalho”.

    Mas no fundo, o problema é mais complexo: a internet vaporizou o local e o horário de trabalho, ao mesmo tempo, à medida em que deslocalizou e dessincronizou nossas vidas. E quem não consegue separar a vida pessoal do trabalho passou a trabalhar em tempo real. E muito mais do que antes. E o tempo inteiro, de fato. Em uma parte da reportagem se lê que… “equipamentos como o BlackBerry, o celular que facilita o envio e recebimento de e-mails, e os laptops, que permitem acessar a internet de qualquer lugar, sem precisar de rede fixa ou pontos wireless, acabaram por eliminar a fronteira entre a vida pessoal e o escritório. Trabalha-se o tempo todo. Na quadra de tênis. Em casa, com os filhos. No jantar romântico com a pessoa querida. Também nas férias e feriados…”

    E isso não é nada: tem gente (e certamente muitos dos infelizes) que acha chique, ou talvez até melhor, sinal de poder, gastar todo o seu tempo no trabalho. Pra quê, mesmo? Da mesma forma que o descontrole de exploração econômica do ambiente está levando o planeta a uma situação potencialmente terminal, a dedicação extrema ao trabalho, principalmente à parte operacional do trabalho, levando as pessoas a estarem a par de tudo o que acontece nos seus negócios, o tempo todo, está acabando com os seres humanos. E aí, elas não têm tempo pra pensar no ambiente, porque, de fato, não estão -porque não vivem- lá.

    E olhe que estamos falando dos executivos, do cume da cadeia alimentar das empresas, de gente que poderia -e deveria- criar meios para distribuir toda a preocupação operacional e do dia-a-dia dos negócios para ter tempo de pensar em políticas e estratégias. Mas não o faz. Por que não quer? Pode ser. Mas também pode ser que a possibilidade de ser achado, de ser perguntado, de se sentir em controle, de poder ver se chegou mais um emeio, sobre o que é, e qual a resposta, agora, mesmo que ela possa esperar até segunda à tarde se agora é sábado à noite e eu estou na balada... dê mais retorno emocional e (me) mostre que estou trabalhando o tempo todo. E que se o negócio der errado não vai ser porque eu não estou prestando atenção e envolvido, o tempo todo.

    Minha tese é que as empresas onde os executivos têm que se envolver com os negócios quase 24 horas por dia são uma mistura do passado com o futuro. De um passado onde os mecanismos de funcionamento das empresas eram por comando e controle cíclico, quase como (também) as forças armadas de outrora. Neste modo, o centro (os executivos) toma todas as decisões, que são enviadas regularmente às bordas (os operadores) e estas, por sua vez, têm que cumprir as decisões a qualquer custo. No passado, com uma banda de comunicação muito estreita (pense cartas...) o centro podia descansar: a carta só iria chegar, mesmo, com o relato do interior, amanhã. Ou semana que vem. Mas mantenha o comando e controle cíclico e ligue todo mundo na internet, em tempo real: o centro pode ficar sabendo de tudo o tempo todo. E fica, e quer se envolver, e se envolve, em tudo, se não prestar atenção no que está verdadeiramente ocorrendo ao seu redor. E aí o executivo, o responsável, não tem tempo pra nada...

    Ao contrário, é cada vez aparente que as empresas modernas devem se comportar como sistemas sem controle, onde o centro define as missões, estabelece pouquíssimas restrições e métricas para as operações de implementação e entrega a missão às bordas, que vai executar os processos que levarão ao eventual sucesso das iniciativas. Por fim, o centro apóia as bordas no cumprimento de suas tarefas. Olhando desta forma, se temos políticas e estratégias, táticas e operações, missão, objetivos, estimativas e métricas, por que alguém, no centro, deveria arrancar os cabelos, todos os dias, para que a coisa, como um todo, funcione? Ainda mais, por que ficar respondendo emeios do clube, da festa, da missa? Pode até ser que, na fase de start-up, quando o negócio está começando, seja preciso trabalhar vinte horas por dia. Eu mesmo já fiz isso mais de uma vez. Mas fazer isso o tempo todo, como meio de vida, é desumano. E causa a infelicidade que a Época Negócios reporta, e de que falamos lá no começo da nossa conversa.

    A internet não apareceu pra complicar, ao contrário do que muita gente pode até achar. Mas vai complicar -e muito- se ela simplesmente entrar no seu negócio sem que ele seja reordenado pra funcionar em rede. Conectar todo mundo ao topo, e muito bem, é algo que a rede pode fazer muito rapidamente. Dê emeio pra todos, crie uma lista “colaboradores”, um blog e/ou dê um Blackberry pra cada um e está feito. Mas, feito isso, fazer o que com isso? Se ninguém sabe direito o que deveria fazer e como vai ser medido e, muito menos, o que os outros estão -ou deveriam estar- fazendo, o resultado será uma imensa caixa de eco, com todos falando ao mesmo tempo, que poderá ter efeitos negativos muito graves no negócio.

    A quantidade de informação em rede está aumentando significativamente o tempo que usamos para processar detalhes periféricos às nossas vidas e interesses, tanto no trabalho como pessoais. Isso vai exigir, de todos nós (e de nossas empresas), métodos e processos para administrar nosso ciclo de vida de informação, o que não deveria ser nenhuma novidade. A internet, apesar de todo seu impacto, é “só mais uma” tecnologia que ajuda e atrapalha, como tantas outras na história. O detalhe é que ela nos deixa potencial e virtualmente mais próximos uns dos outros, tanto no tempo como no espaço. Aí, quem não souber, puder ou quiser delimitar seu espaço-tempo vai ser engolido pela nova máquina de fazer doido. Por mim, tô fora. Tomara que vocês também consigam escapar...

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