Pandora, caixinha difícil de controlarA web está revolucionando modelos de negócio há dez anos. Vez por outra, uns dinossauros reaparecem, vivinhos da silva. Ainda bem que há antídotos à mão...Pandora, na mitologia grega, foi a
primeira mulher. A seu cargo estava um vaso que a curiosidade, (in)felizmente, não deixou fechado. Ao abri-lo, Pandora libertou uma torrente de infortúnios sobre a humanidade e só conseguiu tampar o vaso quando restava apenas um “presente dos deuses” lá dentro. Segundo uns, era a esperança, mas outros acreditam que se tratava, de fato,
da advinhação. Nos nossos tempos, pandora é algo que, ao começar, ou se abrir, é quase impossível controlar ou fechar. Na web, uma das caixas de pandora é o compartilhamento de conteúdo, fora do controle da outrora grande e poderosa indústria de áudio e vídeo, que ainda se acha com super-poderes suficientes para fechar a tal caixa. Será que vai conseguir? Isso quando a web, em si, é outra caixa de pandora, muito maior?
O primeiro grande problema é que não há só uma caixa, mas milhões delas, tantos quantos são os usuários da rede. Haja energia pra tentar ordenar tamanho caos. O segundo é a dificuldade, inerente aos impérios da hora, de aprender história e com ela. Olhando para conteúdo, é fácil ver que
a prensa de tipos móveis de Gutenberg destruiu o modelo de negócios dos livros copiados nos mosteiros, que além de seus altíssimos custos, só eram produzidos mediante autorização dos poderes de então, fossem o rei e seus prepostos ou as autoridades eclesiásticas. Gutenberg mudou as regras do jogo e imagina-se que, logo nos primeiros usos de sua impressora, ele tinha “tipos” (as letras, em metal) suficientes para compor e imprimir
dezenas de páginas diferentes por vez. Imagine impacto disso nos mosteiros, no grau de liberdade dos povos e, por fim, na derrocada dos impérios.
Não se queima livros, como se sabe, à toa.
Gutenberg até hoje dá teses e mais teses. Mas vamos voltar pro presente, 450 anos depois dele. Esta semana, uma das mais interessantes páginas coletivas da web,
digg.com, resolveu se render à censura imposta por uma associação da indústria (o Advanced Access Content System Licensing Administrator, AACSLA), responsável pelo DRM (digital rights management, ou sistema de chaves digitais para gestão de conteúdo) dos HD-DVDs, aos sites que publicaram (ou publicam) a chave que decodifica todos os HD-DVDs que estão por aí. Ao fazer isso, digg gerou uma revolta em sua comunidade, que quase destrói o site, que colapsou por várias horas, levando seus administradores a ceder, não à censura da AACSLA, mas à pressão de seus usuários. Melhor ter um negócio correndo o risco de sofrer um processo do que nenhum negócio...
A história está contada em detalhe aqui, na BBC.
Muita zuada por nada, diria um Shakespeare lá de Taperoá.
Eu publiquei a chave no meu blog em fevereiro e ela está lá até hoje, para quem quiser. Ainda não precisei usá-la. Aliás, ela vai ficar “velha”, pois a AACSLA avisou aos fabricantes de DVDs e players que vai liberar uma nova chave em breve, o que terá a conseqüência de impedir que os DVD players já vendidos toquem os DVDs codificados com a nova chave! Seus donos terão que trocar o firmware... imagine a confusão. Por nada.
Mais de 80% dos participantes de uma enquete da Wired previam, esta semana, que a nova chave será quebrada em menos de um mês. E a confusão começará de novo.
Conteúdo, como um todo, precisa de um novo modelo de negócios. Não adianta fingir que não e muito menos tentar cercear os usuários usando regras bizarras. Não dá para continuar sujeitando pessoas honestas e decentes, que compraram um DVD legal, a ter que quebrar o DRM do dito pra tocá-lo no computador, onde o leitor não adere ao padrão fechado que a indústria de mídia quer impor. Se comprei o conteúdo, qualquer uso razoável que eu faça dele deve ser permitido. Cópia para meu uso, por exemplo. Tocá-lo em qualquer lugar, outro. Emprestar para quem eu quiser. Revender, recomprar, alugar, destruir se for ruim. A indústria tem que se dar um reboot, e isso vai acontecer mesmo que ela não queira, com o fim do suporte físico para conteúdo, graças à conectividade universal e banda larga para todos. E ao espírito da rede, de abertura radical, de caixa de pandora já aberta.
Aliás,
Pandora também é uma “rádio” na web, que acaba de receber uma outra “ordem”, também esta semana, de outro dinossauro:
limitar suas “emissões” apenas ao “território” dos Estados Unidos. E tudo entre aspas, aqui, porque a tal ordem equivale a dizer que a rede, digital, tem que se comportar como analógica! Isso é um absurdo de proporções mastodônticas. As rádios “concretas” tinham limites geográficos (e ainda têm, hoje) porque seu suporte físico --na forma de transmissores, antenas e receptores-- é uma plataforma limitada. Não faz sentido, numa rede onde o mundo é um ponto, limitar a geografia que pode ter acesso a um site. Mas isso pode ser feito porque a tecnologia da rede também permite identificar, a custo muito baixo, a geografia de seu endereço IP. Aí, ao invés de usar a tecnologia para empoderar os consumidores, os antigos imperadores do conteúdo querem fazer o contrário, impor limites a uma avalanche tecnológica como a internet, mais libertadora do que a imprensa de Gutenberg.
Mas a rede e suas comunidades parecem não ter volta.
A abertura é grande, radical, e os esforços para fechá-la são sempre contrapostos por mais alternativas para mantê-la aberta, quando não para abrir ainda mais. Quer saber como? Se você é (ou era...) ouvinte de Pandora, é só voltar lá usando uma das muitas alternativas propostas (por exemplo)
neste link. A caixa de Pandora foi aberta num passado imemorial. Esteve, está e continuará aberta. O descontrole da tecnologia e o empoderamento da periferia estão aqui para ficar. Para sempre. Se você tem um modelo de negócios que não considera a liberdade de seus consumidores, lamentamos muito. Bom passado pra você.