O Carnaval e a Borda da WebÉ carnaval e o colunista vai sumir nos blocos e maracatus do Recife e Olinda. Mas a coluna fica no ar pra falar da borda, do futuro, das inovações necessárias e possíveis na web. Bom carnaval!.. Eu sei que é sábado de carnaval e que eu talvez devesse estar escrevendo aqui sobre a folia. Mas vocês que estão tendo tempo para ler esta coluna, hoje e esta semana inteira, não estão brincando carnaval e quase certamente têm muito pouco interesse no que eu teria a dizer sobre maracatus rurais e de baque virado, a saída do Eu Acho é Pouco, a “ficada” do Siri na Lata e as performances no Enquanto isso na Sala de Justiça. Sem falar no que rolou no Quanta Ladeira, que este ano tem Elba Ramalho e uma música “tema” só pra ela, cantada por Chico César. Para quem quiser ver, ouvir, saber e brincar, o endereço e tempo são um, dois: Recife e Olinda, fevereiro de qualquer ano. Ano que vem, se já querem saber, dia de Iemanjá é sábado de Galo da Madrugada e o mar e o povo do Recife, e não graças ao aquecimento global, vão ferver.
Mas é o colunista que está no carnaval, e não a coluna... e hoje vamos discutir as “bordas” da web, da rede, a partir de um texto de John Battelle, que escreve o ótimo Searchblog. A pergunta de Battelle é “
onde está a borda da web”? Onde estão e quais são os lugares onde a rede, a web “antiga”, dos protocolos e serviços primários, e a “nova”, de serviços, interativa, leve, “2.0”, não chegou, não se tornou a forma padrão de fazer as coisas ou onde, quando chegar de verdade, vai mudar de vez a forma de fazer as coisas?
É bom lembrar que podemos medir o tempo, aqui na Internet, na forma 10DW, ou dez anos desde a web. E não precisamos dizer que ela mudou muito do mundo e, onde virou padrão e forma de fazer as coisas, mudou tudo. Há quanto tempo você não entra numa fila de banco pra pagar uma conta? Eu nem me lembro mais da minha última vez. Mas ainda falta muito, tanto em diversidade quanto em intensidade e universalidade, para a web ser “a” forma de fazer as coisas... cadê, por exemplo, o mapa do engarrafamento das ruas de nossas cidades no painel dos carros, dando sugestões coerentes e inteligíveis, em tempo real, sobre a melhor forma de chegar em casa, mesmo que por um caminho muito mais longo e original?...
Aqui no carnaval de Recife, em muitas partes da cidade, o trânsito toma ares de São Paulo em seus piores dias e não há quase nada a fazer. Chegar nas concentrações dos blocos é sempre um feito magnífico e nós, pernambucanos, teríamos muito a dizer -- e fazer -- sobre a integração da web, carnaval e trânsito. Quando não fosse possível, mesmo com a ajuda de
mashups (integração de informação e serviços, na web) chegar antes do bloco sair, bem que o estandarte poderia ter GPS, para localização, integrado com áudio, vídeo e uma medida (mais um
mashup) da animação da saída.
Mas, como a coluna não é sobre o carnaval, vamos tentar levar a coisa a sério: o texto de Battelle assume que a web está em todo lugar. Em quase todo, eu diria, está. Mas a intensidade e disponibilidade são muito desiguais; a rede que integra e disponibiliza áudio e vídeo ainda não chegou na maioria dos lugares de países como o Brasil. Isso torna impossível, para muita gente, fazer uso intensivo de coisas como YouTube, pois vídeo demanda muitas centenas ou mesmo milhares de kilobit por segundo e isso só está disponível para muito poucos. Aí está uma “borda” óbvia da web: universalização do acesso em banda larga, para que a maioria das coisas sobre as quais se ouve falar de web 2.0, multimídia, sejam possíveis aqui e em outros países menos aquinhoados, a preços que se possa pagar.
Mas não é só banda que falta. Pense em celulares. A web não chegou lá, devera, mesmo nos melhores lugares. Ou o custo é caro demais ou, quando suportável, os serviços, conteúdos e seu casamento com mobilidade são primários. Tirante voz, o principal uso dos celulares é o envio de mensagens de texto, o que os coloca numa era pré-web e mesmo pré-internet, coisa de 20 ou mais anos atrás, quando o máximo que se conseguia fazer em rede era mandar formas limitadas de emeio. Há um espaço enorme de oportunidades de casamento da web com mobilidade e certamente veremos muito disso nos próximos anos.
Mobilidade tem a ver com espaço; integrar a web com celulares (e carros, trens, aviões, bicicletas...) nos dá uma certa liberdade espacial digital. Outra borda da rede são funcionalidades que dependem do tempo ou mexem com ele. Quanta coisa poderíamos querer fazer e não temos tempo? Não somente no sentido da escassez, mas da disponibilidade. Temos tempo noutra hora, mas não no momento em que as coisas estão rolando. Integrar nossa disponibilidade com o conteúdo que queremos ver, ouvir ou produzir vai ser muito importante e demandará ainda muita inovação e serviços. Coisas como IPTV, que
discutimos aqui na semana passada, vão mudar o mundo e se tornarão padrão em pouco tempo, ameaçando inclusive os modelos broadcast, abertos, de TV, mesmo o digital.
Juntando espaço, tempo e integração de áudio e vídeo, há muitas razões para supor que vamos ver inovações, na web, que possibilitem interação de qualidade, entre muitas pessoas separadas por distâncias de milhares de quilômetros. Já cheguei a viajar dez horas de avião para participar de uma reunião de três horas. Juntando o mesmo tempo pra voltar pra casa e as esperas e traslados nos aeroportos, lá se vão trinta horas, o que reduz o uso útil de meu tempo a menos de 10% do total. Mexer com espaço e tempo integrando áudio e vídeo pode, entre outras coisas, diminuir a demanda global por transporte, limitando uma das principais causas do efeito estufa. Taí uma outra borda muito importante da rede.
Viajar pra conferências e reuniões é apenas um caso extremo de ir para o trabalho. Novas formas de trabalho, possibilitadas por usos inovadores da web, poderiam reduzir significativamente a necessidade das pessoas baterem o ponto em algum lugar onde, por absoluta falta de alternativa, todos têm que estar juntos. Isso não quer dizer que o trabalho vai ser feito em casa, coisa que pode ser impossível para muitos.
William J. Mitchell, professor de arquitetura do MIT, escreveu em 1999 um pequeno livro (
e-topia: Urban Life, Jim--But Not As We Know It), no qual discute como os pontos de encontro mais importantes da humanidade -- as cidades -- podem ser redesenhadas com e pela Internet. Ao invés de informatizar o que existe, sobre as estruturas que existem, impondo à rede a ordem da cidade, Mitchell propõe que pensemos como as estruturas leves e flexíveis da rede poderiam ser usadas para desconectar os aglomerados urbanos, ao mesmo tempo conectando, reconectando e reunindo pessoas (veja slides de Mitchell, sobre o livro,
aqui.
Nossas grandes cidades estão em crise profunda. Não bastassem trânsito, enchentes, violência e poluição, agora somos engolidos por buracos pequenos e grandes. O que Mitchell já dizia sete anos atrás, bem antes da micro-revolução de web 2.0, é que a Internet pode muito bem ser o novo fio condutor das interações humanas, reestruturando o mundo físico no qual ela própria está embutida. Mais cedo ou mais tarde, vai ser por aí mesmo. É capaz até de mudar muito e, quem sabe, melhorar o carnaval. Pensando bem, tomara que só melhore fora dos meus blocos e maracatus. Dentro, se melhorar, estraga. Feliz carnaval a todos...