Formulário de Busca
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    Ora (direis) ouvir... blogs!


    Há um mundo inteiro de conteúdo lá fora, na web, e nosso maior problema não é só encontrá-lo. É descobri-lo dentro de contextos que façam sentido, agregado a outros conteúdos que façam sentido em conjunto. Aí é que entra...

    Olavo Bilac começa seu mais famoso soneto dizendo... “Ora (direis) ouvir estrelas!  Certo/ Perdeste o senso!” e continua: “E eu vos direi, no entanto,/ Que, para ouvi-las, muita vez desperto/ E abro as janelas, pálido de espanto...” Publicado em 1888 na coletânea Via-Láctea, é difícil encontrar um brasileiro letrado que não saiba pelo menos a abertura, escrita pelo príncipe dos poetas numa época em que ouvir estrelas não fazia o menor sentido. A não ser na cabeça e na alma do grande parnasiano.

    De uns tempos para cá, à medida em que a disponibilidade de banda larga foi se tornando maior, o conteúdo multimídia --aquele além do texto, puro e simples-- começou a ser a estrela da internet e nós começamos a nos acostumar a ouvir e ver na rede muita coisa que aconteceu, ou acontecerá, no rádio, na TV ou no cinema. Ou, melhor ainda, que não aconteceu e nem vai acontecer lá, fazendo aí a rede seu maior papel, o de conectar pares. Ou interessados: certa cena de sexo na praia, por exemplo, não passou e nem vai passar na TV nem tão cedo.

    Todos e cada um de nós temos nossas fontes de conteúdo na internet. Tem gente que passa horas em YouTube, vendo os vídeos, como se diz na minha terra, mais “abestados” do mundo. Ou ainda mais tempo vendo os programas e filmes inteiros disponíveis em smashing telly, um exemplo de “wist” ou web list, onde pessoas escolhem e, muitas vezes, editam conteúdo à mão para o formato web. Um bom exemplo é o excelente documentário de Richard Dawkins (inteiro, quase duas horas) The God Delusion... ou “o” filme de ficção Alphaville, de Godard, feito em 1965, que não está em quase lugar nenhum na web.

    Se você não está vendo, deve estar ouvindo muita coisa boa. Como RecifeRock, que dá um noção muito boa das mais de trezentas bandas --a maioria desconhecida do grande publico, no Recife e fora dele-- que povoam a cena de música roqueira e assemelhada, nova e velha daqui de MauritsStadt. Ou SomBarato, um audio blog novo que tem de Itamar Assumpção a Cartola e Chico Science, passando por Siba e Dilermando Reis, em versões muito difíceis, ou impossíveis, de encontrar. RecifeRock, tem uma licença Creative Commons e boa parte de suas faixas não está publicada em nenhum outro meio que não a internet; SomBarato aponta para repositórios de arquivos que têm discos e CDs inteiros, servindo mais como um “diretório” de conteúdo.

    Aqui começa nossa verdadeira história: no meio de tanto “imaterial” disponível na rede, publicado por tanta gente, que conteúdo é interessante e, ainda mais, me interessa? O caos é a norma da rede, hoje: um dia, as coisas existem; no outro, não.... um dia estão aqui, no outro acolá; e mais, é tanta coisa produzida por tanta gente que a enxurrada de conteúdo é inadministrável para um mortal comum que só tem 24 horas no dia. Ou menos, se fizer qualquer outra coisa além de navegar.

    Tem gente como Anthony Volodkin pensando nisso. Ele --que ainda é a banda de um só por trás do projeto-- pôs no ar há algum tempo, mas talvez você ainda não tenha visto (e ouvido!), Hype Machine, um serviço que procura links pra MP3 mundo afora (quase nada no Brasil), publica uma lista quase instantânea do que está achando na rede, aponta para os blogs onde os links estão e descobre se estão à venda em Amazon, eMusic ou iTunes. Mas não só: Hype Machine “sintoniza” um blog, uma busca e os últimos links agregados por ele pra você como se fosse um playlist. O “tocador” do site manda a música no contexto, ligando o que você ouve ao blog e ao texto, no blog onde o link está, sobre a canção. Assim, você pode “ouvir” uma busca por Fela Kuti (114 links, menos de 10 ativos), um blog como Mars Needs Guitars (centenas de links ativos) ou deixar Hype Machine ir “tocando” pra você o que ele estiver encontrado nos blogs que varre.

    Teve quem dissesse que o site era o “novo” Kazaa. Não é, não há troca de conteúdo lá, nem estímulo para que haja. Ao contrário, Volodkin ganha uma percentagem quando alguém compra uma música que ouviu no site; seu modelo de negócios depende das pessoas comprarem --e não copiarem-- música. Mas é possível, claro, ir atrás dos links que estão nos blogs e, dependendo do que você fizer, pode ser ilegal no país onde você mora. Independentemente disso, trata-se de um jeito muito inteligente de criar um diretório de música dinâmico, na web, adicionando contexto e agregação de uma forma muito esperta. Semanas atrás apontei, nesta coluna, usando uma apresentação da Bear Sterns, que agregação e contexto, ao invés de conteúdo, poderão ser as coisas mais importantes do futuro (de negócios de conteúdo) da rede. Depois de ler este texto, vá comparar Hype Machine com seu ambiente e comunidade de “troca” de conteúdo multimídia, pra ver as diferenças.

    Hype Machine está na lista dos sites mais importantes --e interessantes-- de música do jornal inglês "The Observer", entre muitas outras. O site está entre os melhores da última Mashup Unconference e faz por merecer. No topo disso, Om Malik, um dos principais analistas da onda de web de serviços (ou web 2.0) está se perguntando se 2007 é o ano dos mashups de música, pois o segundo lugar da Mashup Unconference também é do mesmo tipo. Como se não bastasse, tem gente de música e investimento dizendo que… “Hype Machine é a melhor coisa que aconteceu à música desde os Rolling Stones!” A frase é de Fred Wilson, investidor e roqueiro.

    Se você quiser saber mais sobre os vinte anos de criatividade e empreendedorismo do criador e do site dê uma olhada na Business 2.0 de outubro passado. Mas bom mesmo é ler e ouvir Hype Machine que é, há algum tempo, uma de minhas “rádios” prediletas… Vá lá. Você provavelmente nunca (ou)viu nada igual.

    Voltando ao começo, bastou a criatividade de um poeta para “ouvir” estrelas e se perpetuar no imaginário nacional. Um menino, de seu quarto de estudo em New York, cria e mantém, sozinho, um serviço inovador que empresas de centenas ou milhares de pessoas não conseguiram imaginar ou fazer funcionar.

    Se ele fez, qualquer um dos meninos-programadores-que-gostam-de-música poderia ter feito nos quartos de seus apartamentos em Recife, São Paulo ou Rio ou qualquer outro lugar do Brasil. Certas horas eu me pergunto porque não fizeram ou porque não estão fazendo outras coisas, diferentes, mas tão criativas quanto. Será que perdemos, depois de Bilac, a capacidade de “ouvir estrelas” ou, neste caso, blogs?...

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  2. Atualizado em -

    O Carnaval e a Borda da Web

    É carnaval e o colunista vai sumir nos blocos e maracatus do Recife e Olinda. Mas a coluna fica no ar pra falar da borda, do futuro, das inovações necessárias e possíveis na web. Bom carnaval!..

    Eu sei que é sábado de carnaval e que eu talvez devesse estar escrevendo aqui sobre a folia. Mas vocês que estão tendo tempo para ler esta coluna, hoje e esta semana inteira, não estão brincando carnaval e quase certamente têm muito pouco interesse no que eu teria a dizer sobre maracatus rurais e de baque virado, a saída do Eu Acho é Pouco, a “ficada” do Siri na Lata e as performances no Enquanto isso na Sala de Justiça. Sem falar no que rolou no Quanta Ladeira, que este ano tem Elba Ramalho e uma música “tema” só pra ela, cantada por Chico César. Para quem quiser ver, ouvir, saber e brincar, o endereço e tempo são um, dois: Recife e Olinda, fevereiro de qualquer ano. Ano que vem, se já querem saber, dia de Iemanjá é sábado de Galo da Madrugada e o mar e o povo do Recife, e não graças ao aquecimento global, vão ferver.

    Mas é o colunista que está no carnaval, e não a coluna... e hoje vamos discutir as “bordas” da web, da rede, a partir de um texto de John Battelle, que escreve o ótimo Searchblog. A pergunta de Battelle é “onde está a borda da web”? Onde estão e quais são os lugares onde a rede, a web “antiga”, dos protocolos e serviços primários, e a “nova”, de serviços, interativa, leve, “2.0”, não chegou, não se tornou a forma padrão de fazer as coisas ou onde, quando chegar de verdade, vai mudar de vez a forma de fazer as coisas?

    É bom lembrar que podemos medir o tempo, aqui na Internet, na forma 10DW, ou dez anos desde a web. E não precisamos dizer que ela mudou muito do mundo e, onde virou padrão e forma de fazer as coisas, mudou tudo. Há quanto tempo você não entra numa fila de banco pra pagar uma conta? Eu nem me lembro mais da minha última vez. Mas ainda falta muito, tanto em diversidade quanto em intensidade e universalidade, para a web ser “a” forma de fazer as coisas... cadê, por exemplo, o mapa do engarrafamento das ruas de nossas cidades no painel dos carros, dando sugestões coerentes e inteligíveis, em tempo real, sobre a melhor forma de chegar em casa, mesmo que por um caminho muito mais longo e original?...

    Aqui no carnaval de Recife, em muitas partes da cidade, o trânsito toma ares de São Paulo em seus piores dias e não há quase nada a fazer. Chegar nas concentrações dos blocos é sempre um feito magnífico e nós, pernambucanos, teríamos muito a dizer -- e fazer -- sobre a integração da web, carnaval e trânsito. Quando não fosse possível, mesmo com a ajuda de mashups (integração de informação e serviços, na web) chegar antes do bloco sair, bem que o estandarte poderia ter GPS, para localização, integrado com áudio, vídeo e uma medida (mais um mashup) da animação da saída.

    Mas, como a coluna não é sobre o carnaval, vamos tentar levar a coisa a sério: o texto de Battelle assume que a web está em todo lugar. Em quase todo, eu diria, está. Mas a intensidade e disponibilidade são muito desiguais; a rede que integra e disponibiliza áudio e vídeo ainda não chegou na maioria dos lugares de países como o Brasil. Isso torna impossível, para muita gente, fazer uso intensivo de coisas como YouTube, pois vídeo demanda muitas centenas ou mesmo milhares de kilobit por segundo e isso só está disponível para muito poucos. Aí está uma “borda” óbvia da web: universalização do acesso em banda larga, para que a maioria das coisas sobre as quais se ouve falar de web 2.0, multimídia, sejam possíveis aqui e em outros países menos aquinhoados, a preços que se possa pagar.

    Mas não é só banda que falta. Pense em celulares. A web não chegou lá, devera, mesmo nos melhores lugares. Ou o custo é caro demais ou, quando suportável, os serviços, conteúdos e seu casamento com mobilidade são primários. Tirante voz, o principal uso dos celulares é o envio de mensagens de texto, o que os coloca numa era pré-web e mesmo pré-internet, coisa de 20 ou mais anos atrás, quando o máximo que se conseguia fazer em rede era mandar formas limitadas de emeio. Há um espaço enorme de oportunidades de casamento da web com mobilidade e certamente veremos muito disso nos próximos anos.

    Mobilidade tem a ver com espaço; integrar a web com celulares (e carros, trens, aviões, bicicletas...) nos dá uma certa liberdade espacial digital. Outra borda da rede são funcionalidades que dependem do tempo ou mexem com ele. Quanta coisa poderíamos querer fazer e não temos tempo? Não somente no sentido da escassez, mas da disponibilidade. Temos tempo noutra hora, mas não no momento em que as coisas estão rolando. Integrar nossa disponibilidade com o conteúdo que queremos ver, ouvir ou produzir vai ser muito importante e demandará ainda muita inovação e serviços. Coisas como IPTV, que discutimos aqui na semana passada, vão mudar o mundo e se tornarão padrão em pouco tempo, ameaçando inclusive os modelos broadcast, abertos, de TV, mesmo o digital.

    Juntando espaço, tempo e integração de áudio e vídeo, há muitas razões para supor que vamos ver inovações, na web, que possibilitem interação de qualidade, entre muitas pessoas separadas por distâncias de milhares de quilômetros. Já cheguei a viajar dez horas de avião para participar de uma reunião de três horas. Juntando o mesmo tempo pra voltar pra casa e as esperas e traslados nos aeroportos, lá se vão trinta horas, o que reduz o uso útil de meu tempo a menos de 10% do total. Mexer com espaço e tempo integrando áudio e vídeo pode, entre outras coisas, diminuir a demanda global por transporte, limitando uma das principais causas do efeito estufa. Taí uma outra borda muito importante da rede.

    Viajar pra conferências e reuniões é apenas um caso extremo de ir para o trabalho. Novas formas de trabalho, possibilitadas por usos inovadores da web, poderiam reduzir significativamente a necessidade das pessoas baterem o ponto em algum lugar onde, por absoluta falta de alternativa, todos têm que estar juntos. Isso não quer dizer que o trabalho vai ser feito em casa, coisa que pode ser impossível para muitos. William J. Mitchell, professor de arquitetura do MIT, escreveu em 1999 um pequeno livro (e-topia: Urban Life, Jim--But Not As We Know It), no qual discute como os pontos de encontro mais importantes da humanidade -- as cidades -- podem ser redesenhadas com e pela Internet. Ao invés de informatizar o que existe, sobre as estruturas que existem, impondo à rede a ordem da cidade, Mitchell propõe que pensemos como as estruturas leves e flexíveis da rede poderiam ser usadas para desconectar os aglomerados urbanos, ao mesmo tempo conectando, reconectando e reunindo pessoas (veja slides de Mitchell, sobre o livro, aqui.

    Nossas grandes cidades estão em crise profunda. Não bastassem trânsito, enchentes, violência e poluição, agora somos engolidos por buracos pequenos e grandes. O que Mitchell já dizia sete anos atrás, bem antes da micro-revolução de web 2.0, é que a Internet pode muito bem ser o novo fio condutor das interações humanas, reestruturando o mundo físico no qual ela própria está embutida. Mais cedo ou mais tarde, vai ser por aí mesmo. É capaz até de mudar muito e, quem sabe, melhorar o carnaval. Pensando bem, tomara que só melhore fora dos meus blocos e maracatus. Dentro, se melhorar, estraga. Feliz carnaval a todos...

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  3. Atualizado em -

    IPTV. O que? Infinitas Possibilidades de TV...

    IPTV vem aí. Pra ficar. Pelo menos onde houver banda larga de verdade, vai tomar o lugar de todas as outras formas de ver o mundo na telinha. E isso vai ser muito bom. Pelo menos pra quem estiver do lado de cá da caixa...

    Bill Gates anunciou ao mundo, em Davos, que IPTV vai mudar o mundo da TV em cinco anos. Cabra otimista. Devia estar falando apenas dos países muito ricos, onde banda larga é larga mesmo. Aqui de onde eu (tento) ver o mundo, há horas em que a “banda larga” não dá mais de 200kbps. Parece sinal de fumaça. Os cinco anos de Gates, aqui, podem vir a ser dez, quinze ou mais, no pior caso, que é o da Anatel continuar parada, sem cobrar performance e tampouco universalização de serviços das operadoras.

    Mas o que interessa aqui é Gates dizer, mais uma entre as muitas vezes em que tem repetido, que vídeo online e a fusão de PCs e TVs vai mudar a experiência “televisiva” e que “...daqui pra frente, mais e mais espectadores vão querer a flexibilidade oferecida por vídeo online e abandonarão a TV aberta, com sua programação fixa e anúncios interrompendo os programas”. Tal tese não chega a ser novidade (alguém vendo YouTube por aí?) e Gates ao dizer isso, cumpre seu papel de garoto propaganda, pois a Microsoft tem interesses gigantescos em IPTV e está montando uma vasta rede mundial de alianças para disseminar a tecnologia e seu uso.

    Qualquer um que tente entender pode citar muitas diferenças entre IPTV (TV via internet, sobre protocolo IP) e TV normal, aberta, mesmo que digital. Com vantagens para a primeira, pois a qualidade é a mesma ou melhor que TV digital e, nela, quem controla a “programação” é você, espectador (ou usuário) e não o “programador central”. Contexto, agregação, armazenamento, busca e recuperação de conteúdo serão muito mais importantes do que horário. Mas IPTV precisa de banda larga de verdade, e uma experiência de uso multicanal, picture-in-picture, gravando outro programa ao mesmo tempo, vai pedir vinte megabit por segundo ou mais.

    Banda larga, muito larga, é na verdade a grande vantagem de IPTV: vendo tv na rede, você está na rede, claro. E pode combinar com seus amigos ver o mesmo programa e interagir com eles, enquanto o show, futebol ou novela está rolando. A interação não precisa ser pela infra-estrutura de IPTV; se seu set top box deixar, ou se você tiver IPTV num PC, pode rolar em Skype ou qualquer outra coisa que você queira. Só é preciso ter banda larga (de verdade) nas duas direções… principalmente se vocês estiverem querendo ver uns aos outros numa (por exemplo) torcida virtual muito real, na sala de cada um. Ou se o “programa” -- o que pode ser muito mais interessante -- forem vocês. Uma câmera na mão e banda larga à disposição e cada um será, pelo menos, um canal.

    O modelo de TV digital aberta supõe que uma pequena parte da atividade do usuário vai ser interativa e que, claro, o “canal” controla a programação. Isso significa que o programador central continua definindo o que o público vai ver e que não há tempo de TV suficiente para atender às demandas específicas de todas as micro-comunidades de espectadores. Em IPTV, desde que as aplicações estejam disponíveis, TV deixa de ser TV e passa a ser um conjunto de aplicações multimídia, interativas e verdadeiramente multidirecionais, sobre a plataforma IP. Você pode parar a programação enquanto vai ao banheiro; pode trazer vídeos, sob demanda, para seu set top box enquanto vê outro programa… não que você precise, porque alguma hora sua banda vai exceder 100 megabits por segundo, e isso dá pra bem mais do que dois vídeos simultaneamente.

    Mas a parte mais interessante é que IPTV pode ser o tratamento ideal do long tail de entretenimento, aquelas milhões de demandas individuais ou de pequenas comunidades que nunca conseguirão se tornar “horário” de nenhuma estação, porque a audiência será sempre muito pequena para justificar o patrocínio. IPTV muda quase tudo: um relatório recente de Bear Stearns diz que no futuro agregação e contexto e (não necessariamente) conteúdo serão os reis do entretenimento. Se eles estiverem certos, o mercado do futuro não vai ter as mesmas empresas que estamos vendo hoje de jeito nenhum. Porque a tecnologia está mudando a equação de criação de conteúdo, tanto ou mais do que muda o processo de sua distribuição. Os mercados (dois, audiência de um lado e criação de outro) vão se fragmentar muito mais e os nichos serão ínfimos; ganhará quem conseguir filtrar e empacotar a miríade de alternativas disponíveis, dar-lhes contexto e agregar experiência e valor aos mesmos.

    Haverá TV aberta daqui a vinte anos? Sim. Terá a mesma importância de hoje? Não. Especialmente onde IPTV for uma alternativa real para o usuário. Porque posso estar interessado somente nas provas de natação da olimpíada e ter a visão apenas das câmeras da piscina, em tempo real, mesmo que não haja áudio ou competição e só gente treinando. Tal “programa” jamais encontrará patrocinadores ou espaço na grade de programação normal. Pense em dez canais de TV aberta. Pense em 200 canais via satélite. Imagine, agora, um número infinito de canais de TV em banda larga. Incluindo a câmera daquela barraca na praia de Maracaípe, pra você ver quem está pegando onda enquanto você está no trampo.

    Só tem um pequeno problema: do jeito que a Microsoft, entre outras, está montando seu negócio de IPTV, as operadoras de telecom têm um papel fundamental… É por lá que os “canais” passam e a “interação” volta e onde os vídeos que se pega, sob demanda, estão hospedados. Há uma variedade de explicações para tal decisão, como o fato da tele administrar a qualidade de serviço da rede para garantir a performance das aplicações… o que pode detonar, de vez, qualquer princípio de neutralidade da rede. Mas é bem mais provável que haja teles no meio do campo porque suas redes são fechadas e as aplicações e conteúdo, lá, ficam teoricamente mais seguras (e nós não podemos instalar nada) e porque teles têm uma longa experiência e história de precificar e cobrar pelo uso dos seus serviços, coisa que as TVs ainda não entenderam que vai ser fundamental no futuro. As teles sabem onde os clientes estão e lhes enviam contas telefônicas desde que J. P. Morgan financiava Graham Bell no fim do século 19.

    Em Davos, Gates estava anunciando – também -- que seu (novo) negócio é mídia e interação. Que o mercado de PCs e seu software está mudando e que sua aposta passa a ser a fusão PC-game-TV na sala, servindo de infra-estrutura pra tudo o que a família faz. Segundo ele, rodando software da Microsoft e, se tudo cer certo, em hardware Microsoft. Há quem ache o contrário e chute que, em 2010, a Apple será maior do que a Microsoft. E que Steve Jobs, ao invés de Bill Gates, vai ser a atração de Davos. Isso se não estiver na cadeia

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    Mangue beat. Manguebeat. Manguebit.

    O movimento mangue mudou a história da música e da expressão artística no Recife nos anos 90. E foi essencial na criação da atitude que resultou no Porto Digital, o sistema local de inovação de tecnologia de informação do Recife.

    Dois de fevereiro é dia de Iemanjá. É meu aniversário, também. E foi num domingo, no dia em que Chico Science estava indo de Recife a Olinda, naquele fim de tarde de sol em 1997, pra ver a Cabralada tocar. Esperamos, esperamos, o maracatu era energia pura, a Treze de Maio lotada, mas Chico nunca chegou. Chico nunca chegou e, no fim da noite, eu estava no necrotério, com Sonaly Macedo, onde Chico tinha ido parar depois de um acidente inacreditável no Salgadinho. Foi o pior aniversário da minha vida.

    O povo do mangue, nome de beat tão interessante quanto a batida propriamente dita, renovou a cena musical do Recife e de boa parte do Brasil como se fosse um big bang. Chico, 04, Mabuse, Renato L, Lúcio Maia e tantos outros teóricos e práticos do movimento botaram nossas vidas de ouvido pra baixo. A trilha de quase tudo, aqui, era de repente daqui mesmo e pra mim, que começava a entender o encanto de alfaias, abês e loas dos maracatus de baque virado, o beat do mangue era como se fosse meu. E não era só eu, muito mais gente tava na mesma onda, atitude, jeito de enxergar o mundo, de misturar as idéias, de achar que muito, muito mais era possível.

    Dois anos antes daquela tarde de maracatu em Olinda, virei professor titular do Centro de Informática da UFPE, numa cerimônia tradicionalmente precedida por um conjunto de câmera executando Bach, Mozart e similares. Pois pra mim foi Júlio Glasner no som, detonando Computadores fazem Arte (artistas, como dizia Chico, fazem dinheiro) quando entrei no auditório e Da Lama ao Caos depois do discurso de posse e antes da cana que durou dois dias... Tudo de acordo com a letra: “...eu me organizando posso desorganizar/ ...eu desorganizando posso me organizar”.

    Nosso lema na informática da UFPE era e ainda é Ciência & Gréia. Ou Competência com Irreverência. Dá no mesmo. No começo da década de 90 nós também estávamos achando que não só era preciso mudar, mas que era possível mudar. O caldo de cultura que se pensava, via e ouvia no delta do Capibaribe, principalmente depois que o movimento mangue começou a tormar forma e nós começamos a nos ver nele e como parte dele, era a base de onde muitos de nós tiramos idéias e energia para começar uma aventura de tecnologias da informação que continua sendo construída, como a mesma força de antes, até hoje. E que não dá sinais de voltar atrás.

    Recife sempre teve empresas de software. Sempre, aqui, significa desde a década de 60, quando a maioria dos leitores não tinha nascido e eu ainda jogava bolinha de gude. E tinha empresas porque havia uma demanda regional sofisticada e capaz de sustentar empresas locais que viriam a ter caráter nacional décadas depois. Mas a globalização começou a pegar a periferia com todo seu poder de destruição e renovação, bem no tempo do movimento mangue, na década de 90. Foi o fim dos bancos locais e regionais, a falência das pequenas indústrias, o fim dos incentivos da Sudene. Enfim, o fim de muitos sonhos, planos e projetos.

    E os acadêmicos de Recife tinham sonhos, planos de construir centros de ensino e pesquisa que contribuíssem para o crescimento da economia local, para a geração de emprego tecnológico, para a criação de novas empresas. Mas a globalização tirava nosso tapete a cada dia e os alunos que formávamos tomavam o rumo do Rio, São Paulo, Seattle e Londres. Foi aí, nesta mesma época, que o povo da tecnologia, tanto os mais novos quando os mais velhos do que Chico, resolveram mudar o jogo. Se Chico fazia para o mundo, por que não nós, também?

    Se a economia local -- que demandava uma informática local -- estava desaparecendo em suas formas clássicas, porque não apostar em uma informática de classe mundial, feita aqui mas para o mundo, atraindo para cá problemas complexos e criando demandas locais que poderiam não só manter muitos dos nossos melhores cérebros aqui mas, ao mesmo tempo, atrair gente de fora pra cá, como tanta gente que estava sendo tragada pra Recife por causa, exatamente, do mangue beat? Se nosso mangue “bit” fizesse o mesmo, poderíamos, com o tempo -- quem sabe?- - tornarmo-nos muito mais relevantes...

    A partir do começo dos anos 90, Recife atraiu o Softex (programa nacional de software), a RNP (Rede Nacional de Pesquisa), vários programas de pesquisa cooperativa em TICs nas universidades, as empresas de software se fortaleceram e aumentaram em número, suas associações se tornaram mais sólidas, o C.E.S.A.R (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife) apareceu, gerando (hoje) mais de 600 empregos em TICs e atuando diretamente na criação ou renovação de mais de trinta empreendimentos. Em 2000, o esforço desembocou no Porto Digital, sistema local de inovação situado no antigo bairro do Recife, o mesmo do Bar Fogão onde o povo do mangue bebia sempre.

    O Fogão desapareceu. Mas cento e tantas empresas de software e de sua cadeia de valor vieram para o Porto Digital, trazendo mais de três mil pessoas que tornam vivo, de dia, o bairro que só existia à noite, quando os caranguejos com cérebro faziam uma festa em algum lugar.

    O mangue não é mais o mesmo. A batida ideal que Chico procurava gerou muitas batidas possíveis, de Otto a Silvério a Cordel a Mombojó a Carfax, entre muitas outras. A busca de Chico fez renascer os maracatus, base de muitas de suas batidas, que estavam mais prá lá do que prá cá antes dele. Hoje há muitas dezenas de batuques ativos, formados depois que as alfaias -os pesados tambores de madeira do Nação Zumbi- ganharam o status dado pelo mangue. É como se um pedaço da África tivesse, de novo, desembarcado aqui, cheio de esperança, seus tambores embalados de alma e vida.

    Para nós, de tecnologia, foi e é o mesmo. Aprendemos com Chico e o povo do mangue que é possível conceber, criar e fazer aqui. E levar tudo, pro mundo, a partir daqui. Estamos e vamos continuar fazendo isso. Com parabólicas e fibras óticas apontadas para o mundo, os pés no mangue, na periferia, na história da qual não podemos e não queremos fugir, fazemos do e no Recife o liquidificador de coisas ao qual nada é imune. Entra dia, sai ano, haverá alguém escrevendo um manifesto. Outro alguém atrás de mais uma batida ideal. Outros escrevendo software, gente fazendo design e interfaces, uns tantos testando, outros criando robôs, fazendo circuitos integrados, celulares, o que vier.

    Ainda acho que não é uma boa idéia lembrar a morte pra comemorar vidas. Mas assim manda a tradição. Prefiro comemorar aniversários, como se estivéssemos todos vivos. Como Chico está. Na Cabralada, domingo passado, depois do ensaio, o batuque continuou tocando bases do CSNZ de 1994. Mas não é só: mais do que na música, o legado de Chico vive em todos os que lutam, nas suas muitas periferias, para fazer muito mais do que os poucos centros do mundo dizem que eles deveriam se limitar a fazer. Viva Zapata, viva Sandino, viva Zumbi!...


    A coluna de Silvio Meira foi publicada excepcionalmente nesta sexta-feira, em vez de no sábado, como de costume, em memória aos dez anos da morte de Chico Science

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