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    Second Life: ditadura e desastre ambiental

    Universo virtual é um software-como-serviço totalmente controlado por uma empresa privada que faz o que bem entende com seus habitantes. Ainda por cima, gasta tanta energia por avatar quanto o Brasil por habitante.

    Second Life é o mundo virtual mais interessante que há por aí e muito tem se falado dele nos últimos tempos. Inclusive aqui no G1 que, a exemplo, da Reuters, tem uma sucursal por lá. A novidade tem gerado discussões importantes sobre o futuro da vida na e com a internet, e foi tratada nesta coluna quando sofreu um ataque de vírus que acabou “derrubando” o mundo inteiro. Até aí, tudo bem. Mas há pelo menos um lado negro em Second Life. Ou dois.

    O maior sucesso entre os mundos virtuais tem suas virtudes e problemas. O maior deles, além de coisas simples que deveriam funcionar (ou não) no software que implementa o lugar, é Second Life ser “governado” por um ditador benevolente ou, segundo um número cada vez maior de habitantes, pela ditadura de seus “donos”, o Linden Lab. Second Life é um serviço implementado por software, disponível em um endereço internet, a usuários que “aceitem” suas regras de uso, que se tornam na prática a constituição a que estão sujeitos seus habitantes.

    Ditaduras normalmente promovem quem não as incomoda e de quebra servem de meio ou apoio a seus propósitos. E perseguem implacavelmente quem as questiona, como os habitantes de Second Life que têm sofrido restrições nos seus direitos básicos (como o de expressão livre). Tal é o caso de Prokofy Neva, que foi banido do  blog oficial do Second Life depois de ter sofrido outras restrições, em função de suas críticas aos donos e governantes e a habitantes que puxam vocês-sabem-o-que dos mesmos. Neva está sendo escolhido para punição exemplar na mais antiga tradição dos governos acharem um exemplo para amedrontar o populacho, o que na maioria das vezes dá resultado no curto prazo mas é uma tragédia no longo.

    Isso leva a uma oportunidade: porque não escrever -- e prover como serviço -- um mundo virtual aberto? Cujo software seja aberto, para o qual as regras do mundo correspondente sejam democraticamente escolhidas e administradas? Esta pode não ser uma coisa periférica para nosso mundo real. Por quê? Um número cada vez maior de regras e operações da sociedade está sendo codificado em software e sendo provido como serviço. É isso que o Linden Lab faz com Second Life: é um serviço de informação, codificado em software, provido por uma empresa privada que usa, para tal, as regras que quer e bem entende. Larry Lessig tem um excelente texto sobre as possíveis conseqüências deste tipo de coisa, em larga escala, na sociedade.

    Pode muito bem ser que determinados “serviços de software” do mundo real (como Second Life) decidam que alguns usuários não devam ter todos os direitos dos outros. Que alternativa terão eles se não houver outros provedores, de preferência abertos, regulados por constituições definidas pela sociedade como um todo e sem uma polícia informacional?

    Temos que prestar mais atenção no que está acontecendo em lugares como Second Life. Porque o que acontece por lá pode vir a rolar, em escala muito maior, num pedaço do mundo real bem próximo do nosso par login/senha. Esta ameaça, claro, é uma grande oportunidade para que nos organizemos para criar nossos próprios (mundos, movidos a) software-como-serviço, abertos e verdadeiramente democráticos. Seria um exemplo de como uma ameaça lá no Second Life vira uma oportunidade do lado de cá da telinha.

    O outro lado potencialmente negro do Second Life, que também deveria ser discutido no mundo real, é o gasto de energia do ambiente. Fazendo a conta em energia elétrica, Second Life é tão caro, per capita, quanto o Brasil. Em uma troca recente de opiniões sobre o assunto, Nicholas Carr começou a responder uma pergunta de Tony Walsh sobre a sustentabilidade de Second Life como modelo de negócios e do ponto de vista ecológico. Na linha negócios, há prós e contras, pensados e escritos por muita gente boa.

    Na vertente ecológica, Carr fez uma contabilidade energética básica e descobriu que o consumo anual de energia de um avatar do Second Life (1.752kWh, se ficar no ar o ano inteiro) é mais ou menos o mesmo de um brasileiro médio, que fica hoje em 1.884kWh. O site tem 4.000 servidores, mais as máquinas dos usuários. Olhando em termos de aquecimento global, o consumo equivalente em CO2, por avatar, é 1.170kg/ano. O número é surpreendente, porque grande. Se for por aí mesmo, os mundos virtuais (e não só Second Life) terão dificuldade para se sustentar no mundo real. Até porque sua conta de energia pode torná-los ecologicamente inviáveis e, por conseqüência, como modelo de negócios.

    Voltando para o começo do artigo, talvez faça sentido juntar as duas discussões: estamos cada vez mais informatizados, por sistemas que usam regras às quais nos submetemos sem saber de todas as suas implicações. Você sabe quais são as “leis eletrônicas” do seu banco? O meu“não se responsabiliza por quaisquer danos, perdas ou despesas oriundas da conexão, demora na transmissão de dados, falhas de desempenho, falhas de equipamentos, vírus e quaisquer outros danos decorrentes da utilização inadequada dos Canais Eletrônicos”. Aí está escrito que falhas ou problemas de desempenho nos equipamentos deles se tornam problema meu, se eu não conseguir pagar minhas contas.

    Ainda mais, quanto meu banco gasta de energia pra tocar seus sistemas de informação? E o governo, os supermercados? De que adianta ter meu cheque em papel reciclado, e propaganda disso na TV, se lá no data center estão contribuindo -- e muito -- para o aquecimento global? Google, que tem um uso estimado de energia entre 20 e 30 megawatt/hora, está muito preocupado com o problema, está instalando 10 megawatt de energia verde para sair da lista negra dos ecologistas (e de todos nós).

    Talvez devêssemos olhar para os serviços informatizados ao redor e perguntar, sempre, quais são suas regras de uso e seu gasto de energia, seu custo ambiental. E pressionar para que as regras sejam decentes e o ambiente, sustentado, pois, mais cedo do que tarde, quase toda nossa vida estará informatizada.


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  2. Atualizado em -

    Somos programas, somos e seremos programados...

    Estamos entrando na internet, mas não só. De muitas formas, estamos começando a nos
    (re)programar, o que cria possibilidades (e riscos) muito grandes. E no futuro próximo.


    A era da informação, segundo Peter Drucker, não começou com a informática ou a internet, mas antes, na Segunda Guerra Mundial. Até então, vivíamos a era da energia, ao redor da qual estavam centrados os negócios e a atividade científica, tecnológica e inovadora. As palavras de ordem eram mais forte, mais rápido, mais potente, num universo de pressões, temperaturas e velocidades. O domínio da tecnologia nuclear e a possibilidade de simular processos estelares deram um ar de fim-da-história ao mundo da energia e, a partir daí, os processos biológicos passaram a dominar o cenário e estes, apesar de baseados em energia, estão organizados ao redor de informação e seu processamento.

    Nós, não por acaso, somos sistemas biológicos de muito alta complexidade. Sendo sistemas biológicos, somos organizados ao redor de informação e seu processamento, o que afeta cada pensamento e ação de qualquer ser humano. Como estamos há algum tempo falando de futuro, talvez fosse interessante investigar quais são os horizontes (humanos) de intervenção e modificação nos subsistemas “naturais” que nos compõem. Nem pense o leitor que arriscarei uma resposta. Ao invés, usarei um exemplo recente para discutir que tipo de “mods”, ou modificações, podemos introduzir em nossos corpos e vidas “naturais” e, usando por base a história de intervenções que estamos fazendo há séculos, deixarei a pergunta em aberto, para cada um pensar e responder como quiser.

    Três quartos da população do planeta têm problemas de visão mais de 30% são míopes e quase 20% têm astigmatismo. Há dois mil anos, não era possível corrigir a visão, na prática, mas já havia tentativas várias; os primeiros óculos, mais ou menos na forma em que conhecemos hoje, foram feitos na Itália, no século 13. Hoje ninguém está nem aí para quem usa óculos ou não e eles são um auxílio estático elementar para a visão, usados em massa. Na Idade Média, podem ter mandado muitos à fogueira, pelo “uso de instrumentos do demônio para tentar interferir nos desígnios divinos”. Não ver bem não é um castigo dos céus, é resultado da forma como uma parte do nosso corpo processa luz; óculos (e depois, lentes de contato) são “mods” aos quais nos acostumamos com o tempo e que se tornaram, inclusive, moda.

    Até aí, tudo bem. Óculos são apêndices externos ao corpo e -- tirando, por enquanto, aqueles das forças especiais -- passivos. Mas que tal pensar em modificar coisas complexas como o sono? Um artigo sobre o assunto, na revista New Scientist, começa com Modafinil, droga que não está à venda no país e que, tomada antes de dormir, transforma um sono de 4-5 horas (ou menos, para alguns) em um descanso correspondente a 8-10 horas de boa cama. Este tipo de “mod”, resultado do uso de drogas que reprogramam funções corporais, pode ser muito relevante para quem trabalha com conhecimento (porque quase sempre tem um projeto atrasado pra entregar), soldados, gente que quer estar atenta, pra quem precisa fazer hora extra ou simplesmente pra quem quer “viver” muito mais, ou seja, dormir muito menos.

    Claro que drogas como esta não são as primeiras a nos modificar ou reprogramar: pense em anticoncepcionais, em uso há décadas. Ou em AAS, cujo princípio ativo é conhecido há séculos e que usamos para reprogramar os receptores que nos dão a sensação de dor de cabeça. A diferença, agora, é que uma gama de medicamentos está sendo desenvolvida usando informática como auxílio essencial e pensando no corpo humano -- incluindo o cérebro -- como uma “máquina” programável. Veja o que diz Russell Foster, biólogo do sono do Imperial College London: “quanto mais entendermos sobre o relógio de 24 horas do corpo, mais seremos capazes de mudá-lo... em 10 ou 20 anos seremos capazes de desligar o sono usando fármacos...” Mas... será que vai ser bom -- ou melhor -- viver sem dormir? Você iria querer tal “reprogramação”?

    Modafinil está no mercado há sete anos e vende mais meio bilhão de dólares de pílulas por ano, tornando-se uma droga de “estilo de vida” para uma quantidade cada vez maior de pessoas. Outras substâncias ainda mais poderosas estão a caminho: CX717, inicialmente desenvolvida para ajudar pacientes do mal de Alzheimer, está sendo considerada pela Defense Advanced Research Projects Agency (Darpa) como um mecanismo para manter soldados acordados e alertas por muito tempo. Testes em macacos mostram níveis de atividade, em macacos “drogados” que não dormem há 36 horas, acima de macacos não tratados e que dormiram normalmente.

    Modificar o ciclo de sono é apenas a porta das possibilidades de programação do cérebro. Cada remédio destinado a funções cerebrais liga, desliga, minimiza ou magnifica a ação de receptores de algum tipo. Mas pode ser que “tomar remédio” seja, em futuro próximo, coisa de um passado distante. Nos laboratórios, há novidades: dc brain polarisation, ou polarização do cérebro usando corrente contínua, por exemplo, é uma técnica para tentar controlar regiões do cérebro com hardware que pode ser embutido num capacete, usado por pilotos, soldados e… por você mesmo, no escritório, fábrica ou balada.

    Os efeitos são melhoria de fluência verbal, atenção, memória e tempos de reação motora. E controle das áreas responsáveis pelo sono. Como acessório de moda, vai ficar esquisito e terá que ser usado com muito cuidado: quando a bateria acabar, seja lá o que você estiver fazendo, poderá cair duro de sono. O que pode ser o ponto de partida para os próximos níveis de “programação”... como fazer com que o cérebro se reprograme de maneira mais permanente para uma ou outra função, como dormir menos.

    O cérebro humano contém um número imenso de neurônios, que formam redes cujas capacidades aprendemos a admirar nos últimos milênios. Admiramos mas, em sua maior parte, ainda não entendemos. O fabricante de Modafinil ainda não publicou o que sabe (ou não) sobre seu funcionamento. Há quem diga que é um acaso. Mas estamos para saber muito mais e isso terá pelo menos duas conseqüências: a tentativa de criar inteligências parecidas com a nossa e o aumento da capacidade de nos programarmos, que acontecerá bem antes e criará possibilidades muito mais amplas do que as permitidas pelas limitadas alternativas químicas que usamos hoje.

    Vai demorar? Vai. Quanto? Algumas décadas, talvez. Enquanto isso, é esperar para Modafinil e similares aparecerem (legalmente) por aqui... e ficar imaginando o que gostaríamos de ter, ou programar, a mais ou a menos, em nossas limitadas funções cerebrais...

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    O futuro da internet é cada vez mais... você

    Gente, de todo tipo, pensamento e expressão, é a coisa mais interessante da rede. E vai continuar sendo. E, no futuro, de forma muito mais intensa.

    Nossa conversa sobre o futuro continua, esta semana, falando sobre os indivíduos e a internet -- e como a rede transformou radicalmente a opinião e a performance individuais. O futuro da rede é cada vez mais seu e meu e, a menos que o império do mal resolva cercear nossos direitos de comunicação e expressão, a internet certamente será lembrada como um marco revolucionário na história da humanidade. Se sobrevivermos ao aquecimento global e conseguirmos escrever a tal história.

    É começo de ano no Brasil -- dez anos depois do advento da internet comercial -- e a Justiça de São Paulo resolve bloquear um site de vídeos, a pedido de duas pessoas que estavam transando na praia, na frente de todo mundo. O bloqueio dura pouco, mas o suficiente para nos incluir na pouco honrosa lista dos países que censuram a internet, como Cuba, Irã e China. Este triste evento é apenas um marco da presença da rede na vida das pessoas e delas, por sua vez, na rede.

    É claro que todo mundo tem o direito de transar na praia, e muita gente o faz, na maioria das vezes tomando providências para não ofender o que se convencionou chamar de “moral e bons costumes”. Se um anônimo qualquer protagoniza a cena, dificilmente haverá interessados em gravar e disponibilizar sua performance num lugar qualquer, para consumo dos curiosos. Mas se os envolvidos forem figuras públicas, haverá atenção e o sucesso será imediato e em muito larga escala. O que também pode acontecer se a aparição do nosso (ex-)anônimo for competente, inusitada ou merecer nossa atenção por seja lá que razão a hora ditar.

    No mundo pré-internet o “caso da apresentadora transando na praia” mereceria no máximo uma foto meio sem foco numa revista de fofocas e notas aqui e ali, em colunas idem. Na internet, o mundo é pequeno, os boatos se espalham na velocidade da luz e o controle da sociedade sobre as fontes de informação e suas conexões é muito, mas muito pequeno. Como a Justiça descobriu muito rapidamente no caso do vídeo armazenado no YouTube. Aliás, YouTube é apenas uma das milhares de fontes onde se pode ver o tal vídeo. A menos que outras coisas muito mais interessantes, do mesmo casal ou de outros, apareçam na rede em futuro próximo, é muito provável que os dois seja perseguidos, para sempre, pelo tal vídeo.

    A razão básica para tanto auê é que somos antropocêntricos: a raça humana é centrada nela mesma, perigosa e quase que suicidamente interessada quase que só no que ela é e faz. A idéia de desenvolvimento sustentado, por exemplo, é uma tentativa de impor alguma ética e moral, sobre homens e mulheres, que inclua o mundo e as outras coisas vivas ao nosso redor. Para o nosso próprio bem, por sinal. De resto, seja lá o que humanos estiverem fazendo, haverá muitos outros interessados. Na rede, então, isso pode atingir massa crítica (a ponto de todo um micro-universo da rede saber, ver e comentar) muito rapidamente, pois a internet é uma máquina de publicação e formação de comunidades como nunca houve na história do planeta.

    A revista Time escolheu “You” como a personalidade do ano de 2006; este “You” é cada um de nós, pessoas da rede, capazes de furar o bloqueio dos cartéis corporativos de criação e distribuição de informação e, com muito pouca energia, mudar o sentido do que se diz e discute na sociedade moderna, perpassada para sempre por mecanismos de comunicação e relacionamento que subvertem as hierarquias do passado.

    Há quem diga que haverá 100 milhões de blogs em 2007, e que isso será o limite. Eu discordo; blogs são pontos de encontro, pequenas comunidades de expressão que podem ser tão pequenas quanto uma única pessoa, que não precisa, no presente, de um leitor sequer. Haverá tantos pontos de encontro na rede quantos humanos conectados houver e, dentre estes, quantos estiverem dispostos a deixar suas impressões, nem que sejam seus vídeos de praia (com ou sem sexo), sobre sua passagem pela Terra. Em 2007 haverá um bilhão de pessoas na rede e a tal previsão nos permite deduzir que apenas 10% deste povo têm algum interesse em registrar alguma coisa na rede.

    Vai haver mais gente na rede, muito mais. No longo prazo -- que tal 2050? -- quase todos estaremos na rede. A população do planeta, então, estará perto de 9 bilhões; exclua, digamos, 3 bilhões que talvez não tenham idade ou não queiram ter nada a ver com a rede e teremos 6 bilhões, quase a população de hoje, online de alguma forma. Mesmo se apenas 10% estiverem interessados em participar da rede como autor, e não só como leitor, teríamos mais de meio bilhão de blogs ou seja lá qual for a forma de expressão pessoal que esteja predominando então. Mas eu acho que seremos muitos mais. De 2 bilhões de blogs pra cima. Sobre tudo e todos, desde a vida dos seus cachorros até meu observatório particular sobre a qualidade da água no Rio Capibaribe... passando por gente especializada em filmar quem faz sexo em público. E publicar em algum lugar.

    Esta presença e conexão maciça de pessoas, vindas de todas as facetas territoriais, econômicas, culturais, políticas e sociais, vai mudar radicalmente as formas de pensar, articular e operar a sociedade, incluindo novas formas de educação, produção e remuneração pessoal e coletiva (“meu blog” pode ser de engenharia de software, e nós podemos estar “negociando” código ou serviço baseado nele), de representação e administração dos coletivos, de estruturação da própria sociedade.

    Todas as mudanças radicais de tecnologias, formas e meios de comunicação foram sucedidas, depois que as mesmas foram absorvidas pelas sociedades, por mudanças tão ou mais radicais nas próprias sociedades. Foi assim com a fala, com a escrita, com a imprensa, com livros e jornais, telégrafo, rádio e TV -- e será assim com a internet.

    Mas numa outra escala, de intensidade muitas ordens de magnitude acima do que vimos até agora. Porque a rede distribui poder, achata hierarquias e nos deixa, a cada um, criador e consumidor de conteúdo, em posições em que nunca estivemos na cadeia de valor de informação, no mundo: no controle.

    É por isso que há, por outro lado, muita gente, instituições e países querendo “controlar” a internet; tal controle, em último caso, significaria o controle dos próprios homens e mulheres na rede, tentando perpetuar algo tão humano como nosso antropocentrismo: a vontade e quase necessidade de uns de nós quererem dominar os outros, privando-os de sua liberdade de escolha e do risco e oportunidades de decidirem o que é melhor para eles e para todos nós, em conjunto.

    Ano novo, vida nova, novas esperanças. Prevejo, aqui do começo de 2007, que as forças do bem serão vitoriosas e que, no longo prazo, teremos muito mais blogs e muito menos controle. Mas é bom lembrar que o futuro não vem, nunca, de presente. Temos que trabalhar arduamente, todo dia, para que ele aconteça.

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  4. Atualizado em -

    Algumas previsões para software em 2007

    Mais um ano começa e este, em software, está sob o espectro de Vista, o novo sistema operacional da Microsoft. Segundo alguns, será o “último grande software de seu tipo”. Mesmo? Por quê?

    Este já é o terceiro do que pode vir a ser uma longa série de textos em que se brinca de prever o futuro das tecnologias de informação e comunicação, apelando para a proteção do patrono dos oráculos, Niels Bohr (aquele do ditado “é muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”).

    Este capítulo é dedicado aos próximos anos do software e, pra começar, poderíamos tentar definir o que, mesmo, é software...

    Segundo Mike Mahoney, professor de Princeton e um dos principais historiadores de tecnologia, a computação tem uma natureza essencialmente tríbia: entre a matemática que torna os dispositivos possíveis e a eletrônica que os realiza, a programação é o que a torna intelectual, econômica e socialmente útil. A computação, pois, se apóia em ciência da computação, engenharia eletrônica e engenharia de software; as duas primeiras estão razoavelmente bem resolvidas e seus avanços são notáveis. A terceira “parece” com engenharia, quando comparada com a eletrônica mas ainda é, em boa parte, arte, ou artesanato. Seja o que for, é um mercado gigantesco.

    Em 2006, os de pacotes de software, aqueles feitos para distribuição em massa como Windows e Office, venderam US$ 250 bilhões, metade dos quais nos EUA. O “resto”, software para corporações, que pode exigir desenvolvimento de sistemas saindo do zero -a partir de especificações da empresa- passa de US$600 bilhões... Isso sem contar os serviços habilitados por software, normalmente incluídos na mesma economia, que valem, hoje, cerca de US$ 1.2 trilhões. Junte tudo, são US$ 2 trilhões por ano, algo bem maior que todo o Brasil, só que crescendo, hoje, a uns 10% ao ano.

    Difícil, portanto, prever o que vai acontecer num mundo deste porte. Mas estamos aqui para correr riscos, certo? Vamos lá: a primeira surpresa do ano (e vem do ano passado) é que a lista dos vinte produtos mais inovadores de 2006, da PCWorld, é encabeçada por... Office 2007. Segundo a revista (segundo lugar, Intel Core 2 Duo,... quarto, Nintendo Wii), a “nova” suíte de Redmond mudará a forma das pessoas processarem documentos, devido às funcionalidades e facilidades que oferece. Isso depois de reaprendermos a interface, segundo PCW a parte mais revolucionária do software. Mas inovação, como ensinava Peter Drucker, se dá no mercado; pode ser muito prematuro, portanto, a PCW dar um primeiro lugar em inovação a um programa que está entrando no mercado e ninguém sabe como vai se comportar.

    Mas eu também testei Office2007 em junho/06 e achei que o software é uma variante bem mais resolvida e elegante de Office. Faz um monte de coisas muito bem, trabalha junto com Windows Live e tem uma grande chance de ser um sucesso, mesmo contra a quantidade de variantes gratuitas de office-na-web que faz uma ou outra pequena parte do que o software da Microsoft faz em nossos desktops. Aliás, pra combater os office killers que estão na web a Microsoft deverá, mais cedo ou mais tarde (depende da aceitação e receita do próprio Office2007), botar Office2007 na web: tá pronto, e rodando, neste link. Resumo, até aqui: Office2007 vai ser muito importante, em 2007 e depois. Até porque a Microsoft tem, ela própria, um office killer, na web.

    A infinidade de serviços que imita partes de Office, na rede, vem de um modelo de oferta de software chamado SaaS, ou Software as a Service (Software como Serviço), que correspondeu a apenas US$ 3 bilhões em negócios em 2005 e prevê-se que quadruplique até 2010, o que fará o setor inteiro ter o tamanho de um trimestre da Microsoft, hoje. Mesmo com a presença de firmas importantes, como a salesforce.com (500 mil usuários, US$ 130 milhões de faturamento em 2006) SaaS ainda depende de muitas coisas para ganhar escala. Como infra-estrutura, pois não temos banda, no mundo, ainda, para fazer com que a maioria -ou uma boa quantidade- das coisas que rodamos “em casa”, ou “na empresa”, rode lá longe. SaaS vai acontecer. Mas não em 2007 ou nos próximos cinco anos, numa dimensão em que haja mais software como serviço do que “software”.

    O que nos leva a Windows Vista, Linux e, porque não, sistemas operacionais como serviço. Quer ver como é? Abra uma conta grátis em YouOS, sétimo da lista de inovações da PCW. Trata-se de um sistema operacional, como se fosse uma pequena parte de Linux ou Windows, no seu browser. Na realidade, é um sistema operacional mesmo, só que rodando num servidor não importa onde, que você pode usar no seu browser em qualquer lugar. Mas deixemos isso pra daqui a pouco. Em agosto passado, na LinuxWorld, representantes expressivos da comunidade de software aberto disseram em alto e bom som que o tempo pra Linux ganhar mais mercado era até o começo de 2008, quando Vista começaria a monopolizar o mercado de PCs, depois de passar pelos testes práticos de compatibilidade, segurança,... entre usuários reais, principalmente corporativos.

    Eric Raymond chegou a prever que o mercado de Linux seria uns 10% nos países ricos e 15% nas economias periféricas o que, se verdade se tornar, garante a dominância de Windows por uns dez a quinze anos mais e rendas gigantescas para a Microsoft. O maior inimigo de Vista é Vista, os restos de Windows do passado e a própria Microsoft, cuja campanha anti-pirataria, segundo o IDC, poderia estar sendo feita pela comunidade de software livre. Linux tem mais de 300 distribuições competindo entre si e este cenário não deverá mudar no futuro próximo. Assim, a Microsoft brigará contra si própria, nos próximos três anos, para inserir Vista em todas as máquinas novas que forem produzidas no planeta e contra os piratas que farão o mesmo para todas as já existentes (e um bom número das novas).

    E YouOS e assemelhados (contra Vista e Linux)? Nos distantes idos de 2004, escrevi que... na próxima era do software, quase não haverá software, pelo menos não à vista do usuário. O que faz todo o sentido do mundo: software não é e nunca vai ser simples. Para que a maior quantidade de pessoas venha a poder usá-lo, é bom que esteja fora do alcance, pelo menos do ponto de vista de instalação, licenças, fontes e tudo o mais. Porque o que importa, no fundo, é o que o usuário faz com ele, e não o que ele é. Isso está começando a acontecer agora, e vai ganhar uma velocidade muito grande nos próximos anos...

    Continuo assinando embaixo e reafirmo que, num futuro não muito distante, a “briga” entre software fechado e aberto será vencida por software como serviço, deixando os dois a ver navios. Ou não: um dos competidores da salesforce.com, sugarcrm.com, distribui, de forma aberta, o software que usa para prestar seu serviço, como garantia, acima de tudo, de sua transparência e continuidade do serviço ao usuário.
    Pode ser, no fim, que todo o software volte a ser aberto, como era até uns trinta anos atrás. Mas será serviço e saberemos, direitinho, o que faz, pois teremos o código, sem nenhum interesse -ou meios- para prover o serviço de forma economicamente viável. Mas esta previsão, se rolar, não é para 2007, é de longo, longo prazo. Falando nisso, aliás, semana que vem tem mais conversa sobre o tal futuro.

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  5. Atualizado em -

    Mais previsões para a vida digital em 2007

    Na última coluna do ano, continamos especulando sobre o mundo e o Brasil digital no ano que vem. Tomara, aliás, que seja um ótimo ano (digital) para todos nós, usuários e excluídos deste grande país.

    Nossas previsões para 2007, coisa inevitável de fazer e errar, quase sempre, começaram na semana passada, numa coluna que terminava assim: Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que software vai começar a se tornar commodity... e em que escala software como serviço vai vingar? E o conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos blogs?

    Perguntas complexas, especialmente no contexto brasileiro. Pra começar a conversa sobre o futuro, temos mais de 100 milhões de celulares, pelo menos 75 milhões dos quais pré-pagos e nas mãos de pessoas cuja renda não lhes dá folga para usar a rede celular como plataforma de conectividade digital de forma ampla. E há pouca evidência de que os outros 25 milhões de pós-pagos estejam dispostos a gastar o que as operadoras querem cobrar pelo tráfego de dados... apesar de já haver pacotes de preço fixo e banda ilimitada, mas que dependem de Blackberries que custam R$1.200, mais R$79.90 de conta por mês. Isso não vai ser, nem tão cedo, um mecanismo de universalização de acesso a nada.

    Mas, no mundo todo, veremos cada vez mais gente usando a web pelos celulares, uma tendência irreversível, porque estamos todos, e quase o tempo todo, em movimento, e precisando de informação sobre as coisas e pessoas que deixamos paradas noutros lugares... e sobre o lugar onde estamos ou para onde queremos ir.  No topo de SMS, tecnologia de quinze anos atrás, tá na hora de chegar algo como MSN a todos os celulares: já conectaria pessoas, mais diretamente, mesmo que fosse só texto, no começo. Isso pode rolar nos próximos anos, em escala, antes dos celulares terem (todos) GPS, mapas e estarem na rede para nos dizer chegar onde temos que (e não necessariamente queremos) ir.

    O danado é que ainda não chegamos nem no ponto onde SMS funciona direito: mandei uns 300 no Natal e, no levantamento feito depois, pelo menos dois em cada dez não chegaram ao destinatário. Os perdidos, em sua quase totalidade, eram para celulares de outras operadoras... Ou seja, antes de querermos mais coisas nos celulares, poderíamos prever -- e pedir encarecidamente, às operadoras -- que 2007 seja o ano em que, finalmente, todos os SMS enviados no Brasil chegarão ao destino sãos e salvos, sem passar por alguma linha vermelha das comunicações... tomara.

    Falando de gente, e gente com celular na mão, o sucesso de redes sociais como MySpace e Orkut expôs uma killer appplication da internet: conectar pessoas (através de informação pessoal e capaciade de interação) e não pessoas a informação. A vasta maioria dos seres humanos, ainda bem, é muito mais interessante, para outros humanos, do que artigos sobre a influência de Jean-François Lyotard no varejo moderno... Estas redes, mais cedo do que tarde, vão migrar para o celular, pois queremos compartilhar, na hora, a foto do cão abandonado na praça, à espera de alguma boa alma entre nossos amigos com espaço para mais um em casa.

    Redes sociais e celulares nos darão de volta, em breve, uma boa parte da gregariedade que perdemos, com o tempo, justamente por causa de nossa alta mobilidade pessoal no mundo moderno e da falta de conectividade de que ainda sofremos, nele, apesar de todo o progresso da técnica. Temos que levar em conta que a tela do celular, pra muitos, especialmente mais jovens, é a primeira e não a terceira tela, como querem alguns (as outras duas são o computador na internet e a TV). Quando os celulares de preço mais baixo tiverem telas de maior resolução, mais memória, mais capacidade para rodar software mais complexo (como os necessários para MP3 e TV digital) e mais (muito mais!) tempo de duração de bateria, seremos uma extensão dos nossos celulares, que serão nossa conexão como o mundo real que deixamos em alguns lugares lá fora.

    O mesmo efeito, por sinal, pode ser conseguido com celulares muito mais simples -minha preferência pessoal- e banda muito mais larga e mais barata, de preferência a preço fixo. Universalizando banda larga móvel, o celular poderia passar a ser um browser, puxando da rede o pouco que rodaria localmente e deixando para os servidores, da internet e operadoras, o problema de processar o que ele vai nos apresentar. Mas o que está começando a acontecer agora e vai continuar em 2007 e depois, no entanto, são os celulares mais complexos, como poderá vir a ser o fone-com-iPod (ou coisa que o valha) da Apple, que fará a maior parte de suas transferências de dados acoplado ao computador, em casa.

    Estamos chegado ao fim do ano e da coluna e só falamos, até aqui, de redes: de comunicação móvel e sociais. Acontece que estas duas tecnologias, uma de trinta anos que começa a maturar e se universalizar e outra novinha, que ainda estamos começando a entender e descobrir seus múltiplos usos, têm um potencial, em conjunto, de afetar muitas outras. Na verdade, quase todas as outras. Uma empresa -por exemplo- é uma rede social de propósito específico, imersa nas suas redes de valor, que têm seus fornecedores, seus clientes e usuários, competidores e por aí vai. Uma escola é outra rede social, onde cada turma, ou sala, é uma rede em si. Tudo em que nós, humanos, estamos envolvidos, são redes.

    Tecnologias de suporte à nossa performance dentro destas tantas redes a que pertencemos, possibilitando o aumento ou extensão das nossas capacidades de participar e colaborar para o desenvolvimento das mesmas serão essenciais para o funcionamento de um universo onde estamos naturalmente distribuídos, com interesses cada vez mais glocais: de fazer as coisas para o mundo, mas de tal forma que possam ser ajustadas, ou adaptadas, para a cultura, costumes e usos locais. Nosso “local” vai ser cada vez mais a nossa rede social, à qual estaremos conectados onde estivermos, na rua, na chuva, na fazenda... ou numa casinha de sapê.

    Semana que vem vai ser 2007 e vamos continuar aqui, neste mesmo dia e canal, brincando de prever o futuro. Até lá e um Ano Novo muito mais simples para todos e suas redes sociais. E, falando em celulares, esqueçam deles ao dirigir, pelo menos: o caminho fica, desnecessariamente, muito mais complicado...


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