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    Lá vem chegando o... futuro

    Os fins dos anos deveriam ser como qualquer fim de mês. Mas nossos rituais de passagem que fazem com que não sejam... e um destes rituais é imaginar como serão os próximos meses, ou o ano novo.

    É muito difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro. A frase de Niels Bohr (prêmio Nobel de Física de 1922) revela parte da complexidade de lidar com o futuro. Mas, como nós todos viveremos (ainda) uma boa parte de nossas vidas por lá, vale a pena arriscar alguns palpites sobre o que pode -- e não sobre o que vai -- acontecer nos distantes idos de 2007. Lembrando, claro, que nunca ninguém volta às previsões do fim do ano anterior quando se faz um balanço do que verdadeiramente aconteceu no ano que passou.

    Aliás, o que aconteceu no ano que passou? A Vivo “mudou” para GSM, por exemplo, o que não era nenhuma novidade. Todas as operadoras do Brasil e quase todas, no mundo, que ainda estão na segunda geração de celulares usam GSM (a Vivo usava, e ainda usa, em boa parte, CDMA). Muitos comentaristas previam, e há muito tempo, que a Vivo, na prática, não tinha escolha, principalmente depois que alguns dos principais fabricantes de celulares do mundo anunciaram que não ofereceriam mais aparelhos CDMA.

    Este era o tipo da previsão fácil de fazer há vários, pelo menos quatro, anos: “este ano a Vivo vai desistir da plataforma CDMA” . Mas só aconteceu em 2006 e, em verdade, levará anos para acontecer, pois há muitos, muitos milhões de usuários de CDMA, como ainda os há de TDMA, noutras operadoras, tecnologia da primeira geração digital, que pode levar de três a cinco anos para desaparecer completamente...

    Outras coisas importantes aconteceram em 2006, claro, e pouca gente previu: a fusão Americanas.com/Submarino.com foi uma delas, indicando que investidores no negócio de varejo virtual querem competir com o varejo de pedra e cal. E muitas outras coisas não aconteceram, e algumas delas até foram previstas, como o Brasil não ter progredido muito nos índices mundiais de inclusão digital. Aliás, desde 2004, quando o índice da revista “The Economist” começou a ser computado, nós saímos do 36º, perdendo dois lugares no segundo ano e mais três no terceiro, para acabarmos em 41º em 2006.

    Isso importa? Se sim, que previsões podemos fazer para 2007? Será que vamos cair mais alguns lugares? A primeira resposta é sim, isto importa muito, pois mede quão preparado o país está para o mundo e economia digitais. A segunda é talvez, segundo a boa norma estabelecida por Bohr. A ameaça mais próxima é a Argentina (claro!) em 42º lugar; o Chile (31º) e o México (39º) já nos passaram e parece que não temos chances de alcançá-los. E o problema não é que o Brasil não avança, é que os outros estão indo mais depressa, como de resto é qualquer competição.

    Nós avançamos muito em computadores pessoais neste ano; pelo menos em computadores pessoais que a Receita Federal vê, destes que pagam impostos ou são isentos deles. A diminuição da fúria arrecadatória sobre o principal instrumento de digitalização real da sociedade, que ainda é o PC (daqui a quanto tempo vai ser o celular? Faça sua previsão...) aumentou consideravelmente o número de computadores vendidos legalmente no Brasil, o que não significa que o número de computadores vendidos, no total, tenha aumentado significativamente. Se bem que, segundo analistas de mercado, serão vendidos sete milhões de PCs em 2006 (contra 5,4 milhões em 2005), 50% dos quais nas “feiras do Paraguai” do Brasil (que desovaram cerca de 70% das máquinas em 2005). Difícil é saber quão precisa é a medida da sonegação e do contrabando...

    Deixando tais preciosidades prá lá, por enquanto, isso pode mesmo ter sido uma evolução, este ano. Pode nos deixar fazer a previsão de que mais brasileiros, pessoas físicas e empresas, terão acesso à internet e seu conteúdo e serviços, como consumidores e provedores. Quantos? Segundo a PNAD 2005, somente 10% dos brasileiros tinham acesso diário à internet. Assuma que metade dos sete milhões dos PCs vendidos este ano são “novos” (não substituem um já existente, com acesso à rede) e que cada um é usado por pelo menos duas pessoas. Arredonde, dobre o número para 2007 e... conclua que... no fim de 2007... 15% dos brasileiros estarão na internet? 5% de nós, a mais, na rede, todo dia, seriam uns dez milhões de pessoas, coisa que dá muito bem pra fazer com cinco milhões de PCs a mais.

    O problema é que a conta da internet discada pode ser muito maior que a prestação do PC e a banda larga, conta fixa, disponível só aqui e ali, não vai nem tão cedo ter preço e cobertura pra botar este povo todo na rede. Ou todas as micro e pequenas empresas que precisam de internet para seus negócios... isso porque as médias e grandes já estão na rede. Resultado: o chute, feito nas mesmas bases da PNAD 2005, para o número de brasileiros na rede em 2007 fica limitado aos 15% do nosso faz-de-conta acima, 1% a mais ou a menos. Fim do ano que vem, se vocês lembrarem, podem me cobrar o erro na previsão, e tomara que eu esteja errando pra muito menos.

    Com tanta, ou tão pouca, gente na rede (pelo menos aqui no Brasil), o que é que eles vão fazer? Ah... este é o resto da previsão, que é o que todo mundo que eu conheço, no mundo inteiro, está tentando fazer. Pra onde vai a mobilidade e o mercado celular? A web vai se tornar móvel, como já o é para os jovens, no Japão? O que vai acontecer com software e, especialmente, com Windows Vista? Será que software (inclusive Vista) vai sofrer algum impacto de aplicações rodando dentro de browsers, em particular coisas que parecem com Office? Será que software vai começar a se tornar commodity... e em que escala software como serviço vai vingar? E o conteúdo? Mais do que em 2006, 2007 será o ano dos blogs?

    Não são poucas as perguntas e as respostas, para cada uma, são muitas. Tantas que ninguém pode tratar mais que umas poucas e, destas, talvez acertar uma pequena parte, especialmente nas previsões para o ano que vem. Porque um ano é muito e, ao mesmo tempo, muito pouco tempo para qualquer coisa. Tendências aparecem num ano e podem ser destruídas no outro. É disso que vamos falar na última coluna do ano, semana que vem: o que começou a pintar em 2006 (ou antes) que pode virar padrão em 2007 e o que está, talvez, pra começar a desaparecer nas próximas doze luas. Feliz Natal e até lá.

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    Varejo virtual cresce e (tenta) aparece(r)

    Fusão das Americanas on-line com o Submarino cria um pequeno gigante virtual, cuja pretensão é fazer bonito no mercado de varejo em geral. Além de sua própria energia, vai precisar do que mais?

    O mercado de varejo no Brasil supera R$ 200 bilhões este ano e seu líder, as Casas Bahia, vai faturar uns R$ 12 bilhões, R$ 450 milhões gastos em marketing. Pra se ter uma idéia do alcance de tal investimento, anúncios das Casas Bahia são vistos na TV em todo Pernambuco, onde não há uma só loja da rede. Outro grande nome, o Ponto Frio, fatura R$ 4 bilhões em 2006, dos quais R$ 90 milhões destinados a marketing.

    No mundo dos tijolos, estão no mesmo mercado grandes cadeias de supermercados e incontáveis pequenos varejistas, cujo diferencial é conhecer o cliente (no) local, que compra quase na “caderneta”, como nas bodegas da década de 60. Redes como a Insinuante, nascida na Bahia, se orgulham de sua base de três milhões de clientes, “numa região em que nem todo mundo possui comprovante de renda ou de endereço".

    Sem comprovante de renda e sem endereço é, quase certamente, sem internet, como a vasta maioria dos brasileiros. Segundo o cgi.br, perto de 70% da população nunca usou a rede; uns 30% usaram nos três meses anteriores à época da pesquisa (PNAD 2005) e apenas 10% usava a rede diariamente. Entre os usuários, 80% nunca fizeram uma compra on-line, basicamente por falta de confiança no meio. Tragédia brasileira, pois confiança se dá através de experiência. Como pouca gente tenta, como construir as ligações de confiança que levariam a uma internet de comércio, além dos serviços que tão bem presta, pela rede, uma boa parte do setor público?

    Mas a pesquisa do IBGE não é só sobre pessoas. Entre as empresas, 70% está na rede, 60% tem conexão banda larga e 30% faziam vendas pela internet; 75% das que vendiam on-line afirmaram ter custos menores do que em suas operações concretas. Ou seja, as empresas estão se conectando, estão vendendo -- pouco -- e esperam vender -- muito mais -- pela rede. Os indivíduos é que estão por fora: a vasta maioria não tem rede e a compra eletrônica, entre os que têm, é muito abaixo do que talvez pudesse ser.

    Olhando para este pequeno mundo dos que compram on-line, há uma grande novidade. As duas maiores lojas virtuais do país, americanas.com (R$ 1 bilhão de vendas, até setembro) e submarino.com (R$ 600 milhões) fundiram suas operações, criando a B2W (http://www.convergenciadigital.com.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=5183&sid=4), um pequeno grande líder na web, responsável por 20% do faturamento do setor. Ou mais. Dependendo de em quem se crê -- e o Brasil é muito ruim de dados --, a B2W é muito maior; há quem diga que o varejo eletrônico é só 2% do total, uns R$ 4 bilhões, e aí a B2W seria 40% do comércio na web. Mas o que nos interessa, aqui, é que a fusão não é para evitar o ataque de uma terceira ou quarta loja abstrata, mas para atacar os líderes do mundo concreto.

    Segundo Fernando (Teco) Sodré, diretor de negócios da Mixer, “a fusão não gera uma concorrência ainda a altura de faturamento dos grandes varejistas no Brasil. Mas tá coçando e não vai mais parar de coçar. O que era só um nome virou também uma força de compra com os fornecedores. Arma simples. Negociação: diferencial do varejo.” O que nos leva de volta às Casas Bahia: o líder do varejo, quase dez vezes maior que a B2W, nem loja virtual tem e, desde sempre, usou uma política de prestações através de carnês que só podiam ser liquidados na loja, para atrair o cliente de volta ao lugar onde, esperando na fila, podia comprar mais. Ainda hoje, isso representa mais de 70% de suas operações.

    O mercado da B2W/americanas/submarino é o público da classe A/B, a galera que tem internet, e quase só, entre estes, quem tem banda larga. As Casas Bahia e companhia apontam noutra direção, pro povo que nem sabe o que é a rede, não porque não queira, mas porque não pode. Cada macaco -- ou vendedor -- no seu galho. Só que a fusão americanas/submarino aponta pro futuro: no passado, não havia comércio eletrônico, só comércio. No futuro, não haverá comércio, só comércio eletrônico (que será chamado de... comércio, pura e simplesmente).

    A B2W olha pra um futuro onde, para competir, as redes serão nacionais e o volume de vendas onde a sobrevivência só está garantida se seu tamanho parecer com, pelo menos, o Ponto Frio de hoje. Senão seu poder de barganha não será nem suficiente para evitar que a Brastemp (e outros fabricantes de eletrodomésticos) entrem no seu mercado local, o que não ocorre, hoje, para não bagunçar a cadeia de valor. O que não é garantido para sempre. A Brastemp está quietinha, testando seus produtos on-line, sem nenhum marketing, porque os canais de distribuição concretos, de redes como a Casas Bahia, ainda são responsáveis por quase a totalidade das suas vendas. E isso também não está garantido para sempre.

    Ou está? No começo da internet, mais de um especialista em comércio garantiu que a rede era o fim dos atravessadores: empoderado pela internet, cada produtor apareceria direto ao consumidor final, maximizando o retorno de seu investimento na produção de seja-lá-o-que-fosse. Mas quem quer, ou consegue, escolher entre mil produtores de alface? Os custos de transação de tanta liberdade trouxeram de volta, e em estilo, lojas virtuais como americanas.com e submarino.com, responsáveis por articular, na rede, a oferta e demanda por todos os tipos de serviços e bens, especialmente os vendidos pelas livrarias, lojas de mídia, eletrodomésticos, enfim, commodities que eu e você, leitor, sabemos como são e, uma vez tomada a decisão de compra, iremos atrás do preço mais baixo.

    O negócio da B2W, a partir da rede mas, claramente, para fora dela, é ter o preço mais baixo para qualquer coisa que seja vendida pela concorrência concreta em qualquer lugar do país. E não só: como uma boa parte do que ela vende faz mais sentido, ou só faz sentido, na web, em lugares onde livrarias e outros tipos de lojas não existem... e nestes lugares, também, não há internet... redes virtuais como a B2W dependem, no Brasil, do aumento significativo da penetração da rede para se tornarem negócios do tamanho -ou maiores- do que as Casas Bahia.

    Hoje, por mais auspiciosos que sejam os sinais, não há a menor chance disso acontecer. No médio prazo, é aquela história de políticas públicas. Coitado do país onde elas são frágeis como as que vemos no Brasil. Se botarmos muito mais gente na rede, haverá muito mais clientes na B2W e outros varejistas virtuais. Será que isso quer dizer que eles vão acabar com as Casas Bahia?

    Talvez não; a galera de lá não nasceu ontem e deve estar esperando sinais de que a rede pode se tornar bem mais de 2% do varejo nacional. Ou seja, como tudo o que se vende on-line equivale a 1/3 do que as Casas Bahia vende em suas lojas... bem que as Casas Bahia podem esperam que a rede, a bem dizer, fique pelo menos do seu tamanho antes de entrar no jogo. Mas a partida é complexa e tem morte súbita na regra; quem entrar depois da janela pode não ter a menor chance, independente do seu tamanho no mundo aqui fora. Daqui a dez anos saberemos o que aconteceu. Até lá e boa sorte a todos...

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    O Caos Aéreo Nacional: único exemplo?

    A economia se transforma em serviços, a sociedade vira software. O insumo fundamental para seu funcionamento é informação: correta e disponível quando se precisa dela. Só que o Brasil ainda precisa acordar para a era da informação.

    Bem no começo de outubro, escrevemos aqui sobre o acidente com o Gol 1907, que hoje se sabe ter sido apenas a pequena ponta do gigantesco iceberg da crise de tráfego aéreo que abala o país. Quem pesquisar os últimos meses do noticiário no G1 e qualquer outro lugar descobrirá facilmente a extensão do problema, aí incluídos os acidentes que quase aconteceram. Só para relembrar o artigo anterior, aviões voam imersos em um ambiente de informação em tempo real: o papel de todos os sistemas de informação e controle ao seu redor é garantir o percurso entre dois pontos, numa rota qualquer, em segurança.

    O caos aéreo é uma dantesca -- e bem brasileira -- mistura de falta de planejamento, investimento e educação. Não projetamos o crescimento da demanda por informação e seu controle em conseqüência do aumento do tráfego aéreo, em conseqüência do que não fizemos os investimentos necessários para tratá-lo. Ainda mais, não passamos os últimos anos educando gente para o difícil e tenso trabalho de controlar aviões. Não se pode laçar alguém na esquina e torná-lo um controlador de vôo em algumas horas, dias ou semanas.

    Como diria um dos meus professores, “a diferença entre a civilização e a barbárie é a manutenção”. Por absoluta falta de manutenção, previdência e providências, a impressão de barbárie que o Brasil passa ao mundo, em suas piores horas, só é ultrapassada pelo nosso despreparo no tratamento de emergências. Há dois meses, um serviço essencial ao funcionamento do país, o transporte aéreo, está mergulhado em profundo caos e a maioria das autoridades responsáveis parece só ter acordado para a gravidade e urgência da situação depois que os principais aeroportos do país simplesmente fecharam.

    Sabendo que informação é tão crítica para viagens de avião e, mesmo assim, estava sendo tratada há anos com o desleixo que, hoje, sabemos, talvez seja hora de perguntar: que outras facetas da economia e sociedade nacionais estão padecendo de um apagão informacional? Até que ponto o caos instalado -- há décadas -- na previdência social não é, em boa parte, um apagão de informação, impossibilitando análises e tomadas de decisão que pudessem minorar o problema? Em que medida o roubo, puro, simples e à luz do dia, dos recursos públicos (inclusive da previdência...), não depende da inexistência de informação e da falta de transparência com ela é manipulada?

    É bem verdade que, nas últimas décadas, houve progressos consideráveis no tratamento de informação no Brasil. Algumas de nossas instituições públicas são verdadeiros centros de excelência em gestão de informação, especialmente -- como convém aos bárbaros -- no lado da arrecadação. O problema é que informação tem um ciclo de vida: ela é gerada em algum lugar, capturada de alguma forma, processada de várias maneiras, transmitida e apresentada em muitos lugares, preservada -- ou não -- e mantida sob sigilo (ou publicada) e, depois de passar por vários ciclos, algum dia é terminada... se não for necessária à história, de alguma forma.

    Este ciclo de vida da informação funciona como uma corrente: o elo mais fraco é quem determina quão forte é o todo. Basta um único ponto de falha para termos problemas, potencialmente graves, no sistema inteiro.

    Hoje, uma sociedade aparentemente democrática é aquela em que os cidadãos têm direito a voto e onde as conseqüências de seu desejo são representadas, transparentemente, nas articulações que fazem o país funcionar. Daqui a algum tempo, serão democráticas as sociedades em que a assimetria de informação entre o poder e os cidadãos for mínima. Já há indícios desta tendência hoje: quanto mais bem resolvido é um país, mais direito à informação têm seus cidadãos. Mas o que ainda ocorre por trás dos panos é muito mais do que vemos aqui da platéia.

    Não que queiramos, como passageiros, controlar o tráfego aéreo. Há razões, inclusive de segurança, para que não tenhamos acesso aos dados do controle de vôo em tempo real. Mas não deveria haver nada que nos impedisse olhar o tráfego aéreo do passado... por exemplo, de ter acesso aos dados de um vôo depois que ele terminou. E ter acesso a um simulador que mostrasse como nosso avião saiu de Recife para São Paulo e quase bateu em outros aviões duas ou três vezes. Ou como foi tranqüila a viagem.

    Tampouco se quer controlar, no miúdo, os gastos públicos; afinal, há servidores nossos lá, responsáveis pelo bom gasto da montanha de dinheiro que o estado recolhe, queiramos ou não. Mas aqui deveria ser possível, aos cidadãos, olhar bem mais de perto e em um bom nível de detalhe o que ocorre com as finanças de estados, municípios, da federação e muitas de suas empresas. Não só não atrapalharíamos a realização das obras e serviços públicos, mas poderíamos ajudar muito.

    Um número de cidadãos -- nossos representantes -- já tem acesso a parte dos dados sobre os gastos públicos. Mas é pouco. Cada um poderia ser um “controlador”, não de tráfego aéreo, mas dos gastos públicos. O acesso à informação sobre os orçamentos públicos e sua execução -- e não a dados consolidados, como o déficit tal e o superavit qual -- seria uma maneira moderna de diminuir a assimetria de informação entre o poder e o cidadão, entre o político e o eleitor, capaz de renovar a face da democracia no país e no mundo.

    Utópico? Pode ser. Mas não custa nada propor. E tentar. A política e a gestão pública não serão sempre estróinas e corruptas; se forem, o país não se sustenta e elas perecem com ele. Transparência é, em quase tudo, transparência de informação. Transparência depende de gestão competente do ciclo de vida da informação relevante para a administração pública e, sendo este o caso, é fácil começar a introduzir o cidadão no ciclo de vida da informação pública... porque se a gestão dos processos públicos for honesta e competente, não há porque temer o cidadão.

    Já se vê pequenos sinais da sociedade da informação amanhecendo. A pressão popular e a competência pública serão essenciais para que informação seja parte intrínseca de nossa sociedade. Quando for, será quase impossível um apagão aéreo, pois muita gente vai notar, bem antes que ocorra, e haverá providências. E vai ser muito mais difícil roubar a previdência e fraudar licitações. Demora, mas vamos chegar lá. É só acordar...

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    Confusão Digital

    Embaladas pela noção de que, alguma hora, todos os meios e mídias serão um só, empresas de comunicações e telefonia estão aprontando uma verdadeira confusão... digital. Até que a convergência os separe.

    O noticiário mundial anda cheio de notas, reportagens, entrevistas e promessas de convergência digital, com cada empresa prometendo mais do que outra. Teles prometem YouTube em seus celulares, TVs a cabo entregam telefonia como parte do pacote, provedores de acesso querem fornecer TV via protocolo IP e, claro, quando houver, TV digital há de ser, segundo quase todos, interativa. A ponto de o espectador poder receber uma chamada telefônica, pela TV, bem no meio daquele capítulo intenso da novela.

    Convergência digital, visto pelo lado da maioria das empresas de mídia ou do que costumava ser chamado de telefonia, parece ser um fazer tudo (todas as formas de mídia e comunicação) sobre sua plataforma física, qualquer que seja, para todos os públicos, desde que eu -- a empresa -- tenha controle sobre o que eles -- os usuários -- fazem.

    Mas isso não vai dar certo, em último caso, porque não irá satisfazer justamente o tal do usuário, responsável pela renda e negócio da empresa. Por que não? Primeiro, talvez devêssemos concordar com uma definição de convergência, à qual podemos chegar através de exemplos. O que é um telefone? No passado, era um equipamento com um dial, microfone e fone de ouvido, conectado por fios a uma central telefônica. Bem no passado, era analógico e vez por outra funcionava. Hoje, é uma aplicação, responsável pela transferência bidirecional de áudio entre dois pontos, à qual podem ser agregadas funcionalidades de tantos tipos que, em muitos casos, escondem o tal telefone.

    Esta aplicação, tanto como emeio, transferência de arquivos, interação com páginas web, rádio e TV, é possibilitada porque um conjunto de serviços -- protocolos específicos para suportar cada tipo de aplicação -- construído sobre uma infra-estrutura (processadores, roteadores, cabos, redes dem sio, satélites) que, em última análise, realmente movimenta os bits que tornam possível nossas conversas. Então, por trás da convergência, está uma rede estruturada em camadas: infra-estrutura, lá embaixo, serviços essenciais sobre ela e, no topo, as aplicações que usamos e pelas quais queremos - eventualmente -- pagar. Convergência digital é transformar em infra-estrutura, serviços e aplicações, usando padrões abertos e inter-operáveis, o que antes eram sistemas particulares, fechados, cada um de um operador diferente.

    E onde entra a confusão digital? Na hora em que uma operadora de celular (Verizon, nos EUA) avisa que vai prover YouTube a seus usuários, ao invés de convergência, é confusão. Por quê? Se fosse convergência, como o celular é um dispositivo que deveria estar funcionando sobre uma rede aberta, a operadora nunca precisaria dizer que vai -- ou não -- oferecer uma aplicação na telinha do meu celular. O problema seria somente meu: YouTube é um site, tem um endereço, eu vou lá e vejo o que quero. Como nós fazemos com nossos browsers. A menos que o leitor esteja na China, Irã, Cuba e outros países que censuram a internet, a escolha do que ver é livre. A internet é, por definição, convergente. A rede das teles, ainda pensada como telefonia, não é.

    As operadoras, de fato, controlam o padrão de experiência que seus usuários têm na rede, deixando-lhes, na prática, pouca escolha. Para que tivéssemos convergência digital real, lá, era preciso primeiro “abrir” as operadoras para a rede. Em outras palavras, seria preciso que elas se vissem como as provedoras de infra-estrutura que realmente são. Compare, por exemplo, com as empresas de eletricidade: nenhuma delas tem a coragem, hoje, de dizer o que nós podemos ligar ou não nas tomadas. Fazemos o que queremos. Num passado distante, até que tentaram. Mas não deu, como não vai dar, no longo prazo, para as empresas de telecom.

    O mesmo acontece com as redes de TV a cabo: apesar de ter alguma escolha dos canais que posso assistir, não tenho (pelo menos aqui em Recife) nenhum canal de Angola ou Senegal. Por quê? O distribuidor controla os sinais (digitais) entram em sua rede... de tal forma que só posso escolher entre os canais que já pré-escolhidos. Haveria uma grande audiência para uma TV do Senegal no Brasil? Provavelmente não. Mas se o mundo fosse mesmo convergente -- e não confuso como os operadores o tornam --, um pequeno número de espectadores, poucos milhares, tornariam lucrativo ver o Senegal, via IP, no Brasil.

    Olhando para as atuais infra-estruturas e serviços (teles e outros) de entrega de aplicações (de telefone a TV e internet) em nossas casas e empresas, não só cada ator que fazer tudo, mas quer, também, controlar tudo e, especialmente o que, como e quando o usuário vê, ouve ou tem acesso. O mesmo pode acabar acontecendo com TV digital, dependendo do caminho que escolhermos: os “operadores” de TV digital, os canais, podem querem ter o mesmo grau de controle que, hoje, as teles e os operadores de cabo têm, ou gostariam de ter, sobre seus espectadores.

    É bom lembrar, e saber, que os espectadores, clientes e usuários estão fugindo das infra-estruturas e serviços fechados para sistemas abertos, onde podem definir, escolher e usar o que querem e bem entendem. As experiências que os usuários querem ter os incluem não só como atores, mas, muitas vezes, como diretores e até como construtores de seus serviços. Foi assim que surgiram Skype, YouTube, blogs e as muitas redes sociais que, hoje, ameaçam a mídia clássica e as velhas redes de telecomunicações.

    Pode ser que a confusão digital continue ainda por muito tempo. Mas ela não há de durar para sempre. Mais hora, menos hora, teremos um mundo convergente sobre a mesma plataforma de computação, comunicação e controle, estruturada em termos de infra-estrutura, serviços e aplicações que podem ser usadas como, quando e por quem queira, sem interferência de “programadores centrais”. Se as teles algum dia pensaram que poderiam ser redes de TVs e vice-versa, cada um e todos controlando os usuários de suas “convergências”, parece que não vai dar.

    Se alguém vai programar o futuro do usuário-espectador, é ele mesmo. E cada operador vai achar, breve, seu novo lugar na convergência de negócios que será criada pela convergência tecnológica. Afinal, confusão não é um bom negócio para ninguém.

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